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Expresso

Clara Ferreira Alves

Coisas de Verão

HÁ UMA DATA de coisas que faço no Verão e que não consigo fazer no resto do ano. Uma delas é olhar o céu numa noite perfeita de calor e descobrir o rasto da Via Láctea, vaporosa como um véu de tule pontilhado de diamantes. Não se trata de romantismo estival e sim de contemplação de todas as coisas que não vemos durante o ano de trabalho. A Via Láctea, por exemplo, invisível nas cidades a olho nu, é uma constelação na qual não reparamos excepto nos manuais da escola ou como material de explicação aos mais pequenos, meninos, sabem o que é a Via Láctea ou Estrada de Santiago? É uma constelação. Sabem o que é uma constelação? Prefiro Via Láctea a Estrada de Santiago, não só porque as estrelas e as peregrinações não devem misturar-se, também porque uma constelação, ao contrário do que me ensinaram em pequena, não é um aglomerado de estrelas, é uma passagem para outro mundo. Quando era criança e fui apresentada ao conceito de infinito, não em termos matemáticos ou numéricos, conceptuais ou filosóficos, olhava para o infinito como uma quantidade maior, tão grande que parecia inesgotável e, sobretudo, incontável. O infinito era qualquer coisa que não se podia contar, contar tanto em termos numéricos como narrativos. O infinito era incontável. Gostava de pensar na possibilidade de o contar, e achava que a coisa mais aproximada era a possível quantidade, finita e infinita, de grãos de areia no mundo, sobretudo os grãos de areia de todas as praias do mundo e de todos os desertos, que ainda por cima mexiam o tempo todo e nessa mobilidade constante de mais e de menos, o trabalho da erosão, representavam exactamente a possibilidade de infinito. Quer isto dizer que nunca olhei para as estrelas, e acho que passei anos sem nunca contemplar as estrelas, afogada na poluição luminosa das cidades. Agora dou por mim a contemplar a Via Láctea, que nem sempre aparece por causa da luz que fazem os homens, e que é uma contemplação do divino se nele acreditarmos. Sendo uma constelação não um prosaico aglomerado de estrelas e sim aquilo, aquele caminho branco, como é possível estarmos sozinhos no universo? E aqui, na zona obscura onde a criação humana como criação única deixa de fazer sentido, entra o divino como conforto epistemológico.

Tenho um amigo que trabalha nessa organização de Prémios Nobel onde se tentará em breve recriar o Big Bang dentro de um acelerador de partículas. O CERN, Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, quer descobrir o cerne da matéria, que saber tudo sobre as partículas elementares. Algumas destas partículas são estáveis e formam a matéria normal, outras vivem durante fracções de segundos e depois entram em decadência e integram o grupo das partículas estáveis, o que me parece um exemplo típico do nosso comportamento com a idade. Parece que todas estas partículas coexistiram durante alguns instantes depois do Big Bang e o que se quer é estudar a colisão das partículas para recriar a origem do universo e recuar no tempo. Chegaremos ao mistério da criação humana através do LHC, Large Hradron Collider, o mais poderoso instrumento construído para estudar as propriedades das partículas. A grande questão é, parece, saber se os neutrinos têm ou não têm massa, e não falamos de serem ricos ou pobres. O HLC, que estará pronto em 2008, é um acelerador de partículas onde vão colidir partículas com uma energia de colisão nunca alcançada, pelo que ficaremos a saber tudo sobre o universo. Ou talvez não.

Haverá sempre uma parte destas coisas elementares e particulares que escapará ao conhecimento dos homens, por mais que me embasbaque com o Large Hadron Collider e um sonho de cientistas. A parte que escapa à ciência é não apenas a que cabe à religião, e cada um toma a que quer, é também a parte que cabe à arte, e na arte, à literatura e à música em particular, produtos materiais vindos da colisão de partículas a velocidades desconhecidas. O escritor francês Michel Houellebecq, autor de um grande romance e livros menores, escreveu "As Partículas Elementares", a sua obra-prima. Houellebecq é um cínico e um céptico, um daqueles escritores que detestam a humanidade todos os dias, e tinge os livros e rábulas de negro. O autor favorito dele é HP Lovecraft, infelizmente, se fosse Edgar Allan Poe talvez Houllebecq tivesse ido mais longe. Em todo o caso, "As Partículas Elementares" olha para os homens e mulheres através de um acelerador de partículas chamado sexo, e a arte do autor consiste em transformar isto, misteriosamente, em literatura universal, e lidamos com a palavra universo outra vez. Tudo sem o LHC, só com a caneta. Bach também sabia muito sobre a aceleração de partículas, e sabia como injectar energia num espaço um milhão de milhões de vezes mais pequeno do que um mosquito. Assim sendo, pode ser que o CERN e o HLC me venham a explicar a Via Láctea, do mesmo modo que contribuíram para a construção da World Wide Web (não, não foi o Al Gore que a inventou) mas jamais poderão explicar o mistério de um leito de estrelas aberto como um caminho numa noite de Verão. Ao contrário do que diria o Álvaro de Campos, devemos apreender ou imaginar uma coisa mesmo sem a esperança de alguma vez a ter.

Clara Ferreira Alves