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Expresso

Clara Ferreira Alves

Atenção ao Paquistão

PARA O CASO DE ninguém ter reparado, o Paquistão está a desfazer-se. As atenções estão concentradas no Iraque e no Médio Oriente e deviam ser concentradas num dos países mais instáveis do mundo e mais perigosos. Pelo simples facto, que de simples nada tem, de Pervez Musharraf ter sido obrigado a aliar-se com os americanos depois do 11 de Setembro na cruzada contra o terrorismo, e de ter demonstrado depois dessa aliança amassada em milhões de milhões de dólares que estava disposto a entregar alguns homens da Al-Qaeda, entre eles Khaled Sheik Mohamed, o "cérebro" do ataque às Twin Towers, o Ocidente ou quem o representa convenceu-se, com a complacência dos "media", que o Paquistão era um caso arrumado. Recorde-se que o Paquistão tem armas nucleares, que já esteve à beira de uma guerra total com a Índia, e que tem um currículo de ditaduras civis e militares e de instabilidade política e corrupção que quase faz a Arábia Saudita ficar bem na fotografia.

O Presidente Bush, tão amigo das democracias, não hesitou em fingir que a ditadura de Musharraf era "democrática" e que o Paquistão era um país que marchava ao ritmo da trompeta de Washington.

Quem conhece o Paquistão sabe que é um país que oscila entre um desejo firme de democracia, com uma elite próspera e culta e infinitamente pequena, e um desejo secular de poder e de alianças espúrias, de lutas políticas e administrativas, de rivalidades e de um sistema de classes herdado do colonialismo inglês e do sistema tribal e familiar e pouco modificado pela independência e o islamismo. O Paquistão é muito mais ameaçador e retrógrado do que o Irão e, quando Musharraf foi a Washington promover o seu livro, não se esqueceu de dizer publicamente que a aliança com os EUA fora forçada e que Bush lhe enviara um mensageiro para dizer que o país seria bombardeado até à Idade da Pedra (os americanos adoram esta frase, usada no Vietname) se não começasse a dar caça aos inimigos dos americanos.

No princípio e aos olhos públicos e pouco informados, tudo corria bem. O Paquistão, que fora o grande empreendedor dos talibãs e o seu mais formidável suporte dentro e fora do Afeganistão, tentando garantir as rotas da energia, como fez a sra. Benazir Bhutto, e instalando os serviços secretos paquistaneses e a sua coutada de generais e operacionais como um Estado dentro do Estado, dava ares de ser um convertido ao bushismo e um adversário de Bin Laden. Nesta zona obscura de tácticas e estratégias que colidem com os interesses nacionais e internacionais, Musharraf jogava uma simultânea de xadrez, tentando conservar o trono e a vida e escapando a vários atentados. No Afeganistão, o ex-empregado da Unocal Hamid Karzai (a companhia americana que negociou o acordo com o Governo de Kabul para a construção da pipeline que traria o gás e o petróleo da Ásia Central para o porto de Karachi em vez de o deixar seguir para a China e para a Rússia ou para os portos do Irão, um velho sonho nunca concretizado) parecia contente com a novíssima aliança enquanto distribuía fatias pelos senhores da guerra e os milionários traficantes de ópio que são quem manda no país, e que o deixarão vivo apenas enquanto Karzai servir de boneco empalhado e sintoma de estabilidade. No Afeganistão tudo correu mal e vai correr pior, e a NATO terá de interrogar-se sobre os interesses que serve nessa região e por que razão envia os seus soldados para serem mortos sem razão nem causa nem propósito. Ninguém sabe o que fazer com o Afeganistão para além de Kabul e do ISAF e da manutenção de Karzai como emblema na lapela com fins decorativos. Na prática, Karzai falhou, o seu poder desapareceu, a sua guarda pessoal é constituída por mercenários pagos a peso de ouro pelos Estados Unidos, e os talibãs, armados e reforçados pelo Paquistão e pelos chefes tribais, continuam a ganhar terreno e a desenhar uma estratégia de guerrilha bem sucedida e fatal para as tropas inglesas e os reféns, paga com dinheiro da droga.

Na fronteira, e no Waziristão, mandam as tribos e a sharia, e Musharraf foi obrigado a recuar militarmente, assinando a trégua. A Al Qaeda, sobretudo o seu "cérebro", Al Zawahiri, continua a operar dentro do Paquistão, com a colaboração dos serviços secretos e da população que considera Bin Laden um herói e que nunca o entregará, se convirmos que o herói existe ainda fisicamente. E Musharraf, depois do massacre de Lal Masjid, a Mesquita Vermelha, e do caso do juiz deposto e reposto, entrou em agonia política. O Paquistão está a mudar, à superfície. No fundo, continua a ser o que sempre foi, um país onde o radicalismo islâmico é brutal e intempestivo, onde as madrasas crescem e se multiplicam, substituindo como sistema social as escolas públicas e os inexistentes ou corruptos sistemas de educação, saúde e protecção, e onde a única lealdade é para com Deus ou o clã. O Paquistão nunca teve uma identidade nacional e colectiva, basta viajar para a Província da Northwest Frontier e para as suas especificidades administrativas ou para o remoto Baluchistão para entender isto. E Peshawar é muito mais uma cidade pashtun e afegã que paquistanesa. Um mundo separado do nosso a que devíamos dar atenção.

Clara Ferreira Alves