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Expresso

Clara Ferreira Alves

A grande história do BPN

Há semanas, a Banca portuguesa era de uma solidez extraordinária e não existiam bancos em dificuldades. Existiam rumores, rumores sobre um banco chamado BPN, Banco Português de Negócios, da Sociedade Lusa de Negócios. Dizia-se que estava em apuros, mas, como existiam há anos rumores sobre o BPN, tudo continuou como dantes. O povo português ignora a vida misteriosa dos bancos e dos banqueiros. O povo português só fala com bancários. Era um modo de vida aceite por todos. O povo desconfiava dos banqueiros, achando que eles ganhavam demasiado dinheiro e cobravam demasiados juros e tinham demasiado poder, e os banqueiros desconfiavam do povo porque não tinha dinheiro e só tinha dívidas. Nos bancos, um milionário amigo da sua off-shore, desses que prejudicam o Estado português em milhares de milhões de euros, foi sempre mais bem tratado do que um pobre com cheques a descoberto ou sem liquidez para um cartão Multibanco.

A crise financeira mundial e a política das "nacionalizações" e das injecções de capital do Estado nos bancos veio modificar este estado de coisas. Porque o Estado sou eu, l'état c'est moi, exactamente. Ou, mais exactamente, somos nós. O Estado é os nossos impostos, os nossos impostos sem fuga nem off-shore, sem perdão e sem remissão. E, agora, o Governo do Estado quer utilizar esse dinheiro para salvar bancos falidos e (alegadamente) suspeitos de práticas criminosas, com a desculpa enganadora de que os nacionaliza e, assim, passamos todos a ser banqueiros cheios de "activos" nos bolsos. A Caixa Geral de Depósitos, mais conhecida por banco do povo, toma conta do BPN e pode avançar com um aumento de capital para isso - depende do "formato" que o resgate assumir, disse (até à 2ª-feira em que escrevo) o inconstante dr. Constâncio - entrando os capitais do Estado na operação. Os nossos capitais, que só devem ser usados para o bem comum, certo? Mas o Governo diz que é para o bem comum, para evitar o contágio do sistema bancário da falência do BPN, esse mesmo sistema que há duas semanas era sólido e não se deixava contagiar pela crise internacional, não se prevendo a necessidade de nacionalizações ou intervenções no sector bancário. Exactamente.

Aqui chegados, vale a pena perder tempo a saber quem vamos salvar e o que é o BPN, o tal banco sobre o qual há anos circulam rumores, embora o dr. Constâncio, nitidamente, trabalhe como Proust num quarto forrado a cortiça e à prova de som e nunca saiba de nada ou desconfie de nada enquanto presidente do Banco de Portugal. E com um opíparo salário pago por quem? Adivinharam. Nós. Para fazer o quê? Vigiar os bancos, entre outras coisas. Tal como aquele balcão do BPN, o das trocas baldrocas, também o Banco de Portugal é virtual.

O BPN era conhecido como o banco do PSD, assim uma espécie de encosto de ex-ministros e secretários de Estado e barões ligados ao PSD e a Cavaco Silva. O homem-forte do BPN, o que tinha "o sonho de ser um player nacional", segundo o"Público", fora secretário de estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva. O segundo homem-forte do BPN, e homem-forte de imensas coisas, era Manuel Dias Loureiro, ex-ministro da Administração Interna de Cavaco Silva. Como sempre, o dr. Dias Loureiro não era o homem da frente, estava por trás, coberto desse véu de respeitabilidade e solidez moral que fazem dele um membro do Conselho de Estado. Foi accionista, esteve na administração entre Novembro de 2001 e Setembro de 2002, continuou "até recentemente" ligado à Sociedade Lusa de Negócios, que controla o banco, como "presidente da Sociedade Portuguesa de Pinturas de Módulos" e mantém-se como consultor de uma das empresas do grupo. O "até recentemente", que cito do "Público", é importante, porque o dr. Dias Loureiro sai sempre dos prédios antes de eles começarem a arder, para roubar uma imagem do dr. Paulo Portas. "Pinturas de Módulos", exactamente. Vêm depois os nomes de Daniel Sanches, outro ex-ministro da Administração Interna (no tempo de Santana Lopes) e que foi para o BPN pela mão de Dias Loureiro; de Rui Machete, presidente do Congresso do PSD e Presidente do Conselho Superior do BPN, e dos ex-ministros Amílcar Theias e Arlindo Carvalho.

Apesar desta constelação de crânios, ninguém conhecia ou estava associado a (alegadas) operações criminosas ou de fuga aos impostos. E também é bom saber que os Assuntos Fiscais estiveram naquelas mãos seguras. As administrações faltosas e possivelmente criminosas não foram eles, foram outros. Que outros? "Quadros intermédios", disseram os jornais (alegadamente). E falámos dos políticos. E os accionistas? Havia gente ligada ao futebol e à construção civil, um dueto que forma, com a política, o triunvirato que reina em Portugal há dezenas de anos. Com a cumplicidade dos governos e dos partidos. E de todos nós que os elegemos. O tal Estado que somos nós. E vamos ser mais, em ano de eleições.

E a história não acaba aqui, é interminável e dela se saberá apenas, para consumo público, uma pequeníssima parte. Nós, os banqueiros forçados, vamos ainda assistir a mais "intervenções", garantias e expropriações para salvar o que não merecia ser salvo. Por mim, deixava-os falir. Tenho mais prioridades do que salvar o BPN. O que isto salva é, apenas, um monte de gente. Salva-a de um escândalo político que deitaria abaixo o regime.