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Expresso

Clara Ferreira Alves

A espinha e o osso

Um dos pontos onde a cobardia e a fraqueza são premiadas é a política. Não a política em todo o seu esplendor, e sim a pequena política, desenhada em rumores e bastidores e intrigas destinadas à salvaguarda da criadagem e à manutenção do poder. Foi há muito tempo que a política deixou de nos convencer da visão romântica e do desígnio social, e há muito tempo percebemos que não é a ideologia que molda a consciência e a consciência que vigia o exercício da autoridade. Percebemos também que pensar livremente dentro da política, que o mesmo é dizer dentro dos partidos, significa a morte a breve prazo. Um exemplo do que acabo de dizer é a entrevista a Ana Gomes que este jornal publicou há uma semana e que é uma raridade. A entrevistada recusa-se a alinhar pelo pensamento do dia e diz o que pensa, não o que pretende que os outros pensem dela mas, o que ela verdadeiramente pensa. Ficamos assim com um retrato de pessoas e situações cobertas pelo manto da hipocrisia. Como se sabe, a questão dos voos da CIA, que não era uma pequena questão e que o actual ministro dos Estrangeiros tentou desvalorizar e torpedear começando por atacar o carácter de Ana Gomes e não as suas conclusões fundamentadas, transformou Ana Gomes em "indesejável" dentro do Partido Socialista. A questão dos voos da CIA não é uma pequena questão porque ela estabelece a distância que todas as sociedades democráticas devem manter entre poder e abuso de poder. Que o autoproclamado Estado mais livre e democrático do mundo tenha decidido, por via de uma Administração criminosa, atentar contra os direitos humanos e raptar, deter e torturar suspeitos em diversos países, chegando ao cúmulo de os transportar para países onde seriam e foram torturados, atropelando o direito desses países e fazendo tábua rasa da independência política desses países e dos países que deram cobertura às operações de "extraordinary rendition", uma prática ilegal e extrajudicial, não é uma questão de "fait-divers". Em Itália e na Alemanha já vimos como o sistema judicial se interpôs, e em Portugal assistimos a uma operação de branqueamento e desinformação dignos de um serviço de espionagem, com um ministro e um Ministério a servirem de porta-vozes de interesses não democráticos e apelando à razão de Estado e a superiores razões de segurança. Neste aspecto, o trabalho de Ana Gomes, que alguma criadagem do PS tentou assassinar recorrendo ao método da apreciação psicológica desfavorável sempre muito usado com mulheres (ela seria tolinha), e sobretudo a coragem convicta de Ana Gomes (a que se juntou a investigação da revista "Visão" e do jornalista Rui Costa Pinto) desmascaram a perversão. Sobre as responsabilidades do passado, saberemos um dia tudo, quando a Casa Branca mudar de dono. A história não termina aqui, e um dos que sabem que a história não termina aqui é, decerto, José Manuel Durão Barroso. O retrato que Ana Gomes traça desta personagem é interessante. Quando ele lhe diz que os partidos são meros instrumentos para chegar ao poder, e que ele se fartou de pensar na oposição até o poder lhe cair nas mãos, percebemos do que se fala. Nenhuma ideologia preside a esta inteligência que trepou da extrema-esquerda até ao abraço dos Açores a Blair, Bush e Aznar e ao patrocínio da guerra ilegal do Iraque. Foi este abraço que valeu a Barroso o cargo que hoje ocupa, o que só reforça a sua ideia de que a ideologia não interessa, o que interessa é o poder e o seu exercício. Ninguém lhe pode levar a mal por isto, esta ambição que Ana Gomes diz ser um problema de "falta de espinha dorsal". Não creio que seja apenas isto. É um problema de osso, e, para agarrar o osso do poder, Barroso é um buldogue de formidável mandíbula. Justamente porque gente desta é perigosa e exercendo o poder em benefício próprio atropela os direitos alheios, precisamos dentro dos partidos de vozes livres e claras que não estejam dispostas a comprometer a ideia democrática em nome do interesse próprio. Em Portugal, os anos do fim do guterrismo e do barrosimo atiraram o país para a crise em que hoje está afogado. A recompensa desta incompetência foi, para ambos, o palco internacional. Com uma diferença: Guterres teve razões privadas poderosas para o seu fracasso, e teve uma atitude infinitamente mais honesta e desinteressada do que Barroso, tendo ganho o cargo que hoje desempenha por concurso e mérito. Nesses anos, inacreditáveis injustiças, ainda não redimidas, feriram de morte alguns políticos em Portugal. Foram anos perigosos, em que a complacência de Jorge Sampaio tolerou todos os atropelos e desmandos. Ana Gomes não se esquece desse tempo e quem tiver um pouco de consciência dificilmente se esquecerá. Continuamos a pagar, nós portugueses, o preço desses desmandos e filiações. E que acontecerá a Ana Gomes, que no Parlamento Europeu fez o trabalho que lhe competia e resolveu não ser a voz do dono? Não será convidada nem reeleita, dizem-lhe os colegas de partido. O preço a pagar pela decência, a competência, a liberdade e a mania incurável da democracia é o despedimento sumário. Assistimos a isto e achamos isto natural? Ainda falta fazer muita coisa em Portugal.