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Expresso

Clara Ferreira Alves

A Câmara ardente

O QUE se passa na Câmara Municipal de Lisboa? Alguém percebe? As notícias nos jornais não são boas. Obras de pavimentação paradas no Lumiar por falta de pagamento. E paradas estão as obras do miradouro de São Pedro de Alcântara, há meses, embora a Câmara diga que os trabalhos vão continuar e que o orçamento foi desbloqueado em Fevereiro deste ano. E assim como vai morrendo uma cidade, com tapumes e montinhos de brita, sinais de trabalhos e nenhum trabalhador à vista, passeios por calcetar, buracos no alcatrão, canos rebentados. Enquanto os senhores vereadores discutem entusiasmados o radioso futuro da cidade e o grandioso plano de reabilitação da Baixa, engalfinhando-se todos para ver quem fica com quê e com que lugar, enquanto o senhor presidente da Câmara garante seráfico que não se demite enquanto a Oposição também não se demite e assim vai segurando o senhor presidente da Câmara que não se demite não se demitindo todos, enquanto se vão acumulando as dúvidas e rasteiras políticas e os senhores vereadores socialistas vão discutindo entre si quem se senta em que cadeira da primeira fila, amuando muito nos intervalos, enquanto o PS e o PSD, sem candidatos definidos, vão deixando a situação apodrecer, enquanto a esquerda vai apostando na erosão da direita e discretamente reza pela manutenção do infeliz Carmona no cargo, Lisboa vai adoecendo e morrendo às mãos de comissários políticos que não governam nem deixam governar.

A situação não devia surpreender-nos. Desde a campanha eleitoral e daquele miserável debate entre Carrilho e Carmona, com cada um deles cuspindo insultos e negando apertos de mão para depois se virem abraçar em público e à frente das câmaras, desde aquela lengalenga do falso desafio do técnico ao político e vice-versa, que tínhamos percebido, os habitantes de Lisboa, que aquela gente era perigosa e a cidade corria perigo. Carrilho, talvez o maior responsável por este estado de coisas e por ter usado a Câmara para trampolim político em benefício próprio, teve a sorte maior, sendo bafejado com uma sinecura em Paris e na UNESCO, onde poderá continuar a escrever os seus livros em francês. Para se ver livre dele, Sócrates teve de lhe oferecer qualquer coisa, o que só demonstra que na política socialista o crime compensa. Carmona teve menos sorte. Herdou uma Câmara falida, e que ele laboriosamente ajudou a falir, e prosseguiu no seu modus operandi de negar tudo e dizer que está tudo bem e não cumprir nada do que diz. Ainda me lembro dos tempos em que Carmona, então ministro das Obras Públicas, assegurava a abertura do Terreiro do Paço, em 2006, e a conclusão das obras que ofereceram à cidade a destruição do Cais das Colunas e a sua substituição por um esgoto a céu aberto. A seguir, vieram as promessas, enquanto presidente da Câmara, da conclusão sempre adiada do Túnel do Marquês, prometida ultimamente para Abril deste ano. Sobre a trapalhada do Parque Mayer ninguém se entende, um dia a suspensa e arguida vereadora do Urbanismo vinha dizer que Gehry seria dispensado, no dia seguinte vinha dizer que não seria, com Fontão de Carvalho a sorrir ao lado, e repetindo as asserções. Na verdade, não me interessa apurar se estes dois vereadores são culpados ou inocentes, o que eu gostava era de saber se foram competentes. Onde nasceu a competência específica de Gabriela Seara como vereadora do Urbanismo, um pelouro importantíssimo? No tempo em que foi a sombra e a chefe de gabinete de Carmona Rodrigues? Foi essa a sua escola? E Fontão de Carvalho, que está na Câmara há anos e deve ter mais segredos e saber de mais negócios do que eles todos juntos, por que não teve a lisura de contar aos que lhe deram a confiança política (e parece que todos os partidos, do CDS ao PS passando pelo PSD lhe deram confiança política, com excepção dos comunistas e dos bloquistas) que tinha sido arguido noutro processo, o do caso EPUL (outra trapalhada) e que ou se suspendia ou não se suspendia, de uma vez por todas? E como é que a Câmara consegue avançar nas decisões e ser governada se toda esta gente reunida mais parece um saco de gatos a miar e arranhar, não declarando a guerra nem a trégua? A Oposição, com a gente da concelhia do PS à cabeça, e com excepção de José Sá Fernandes, mais não faz do que opacas declarações para os jornais destinadas a salvar o coiro político e a assegurar a capacidade de sobrevivência se aquilo cair, nem governando nem deixando governar. Maria José Nogueira Pinto, que nunca se entendeu com Carmona, acabou a ser enxotada da coligação depois de se ter envolvido em disputas verbais com Paula Teixeira da Cruz, isto ao mesmo tempo que Miguel Coelho e Gaioso Ribeiro do PS faziam o mesmo, e Ruben Carvalho e Sá Fernandes, de fora da refrega, iam assistindo à degradação da situação. Enquanto cá fora a cidade morre e os credores latem, lá dentro é a cizânia e a intriga, com os partidos políticos a calcularem os seus ganhos e perdas. Vamos continuar assim até 2009, velando o cadáver?