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Nicolau Santos

Vale tudo para a Telefónica

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

Na luta pelo controlo da Vivo, a Telefónica está a mostrar a sua verdadeira face: um parceiro que não respeita as regras do jogo e que utiliza todos os truques e golpes baixos para enfraquecer o adversário e levá-lo ao tapete.

Os espanhóis já tinham mostrado que não eram cavalheiros. Fizeram uma primeira proposta, não conhecida, de €5 mil milhões. Mas não deram oportunidade de, por este preço, ser a PT a fazer a proposta de compra da posição da Telefónica na Vivo. Em seguida, decidem avançar com uma oferta hostil de €5,7 mil milhões. Ora não se faz isto a um parceiro com quem se trabalha em conjunto há 13 anos. Mas se a Telefónica esperava que a PT ajoelhasse, ficou certamente surpreendida pela recusa pronta da oferta.

Partiu então para a ameaça. O CFO da Telefónica e representante na administração da PT, Santiago Valbuena, dá uma entrevista ao "Financial Times" onde faz duas ameaças se os portugueses não aceitarem vender: a suspensão dos dividendos da Vivo e, se mesmo isso não resultar, uma eventual OPA sobre a operadora portuguesa. Mais uma vez, a resposta deve ter surpreendido a Telefónica. Zeinal Bava, presidente executivo da PT, pede a demissão de Valbuena da administração da PT por conflito de interesses.

Com o tempo a passar, ambas as equipas correm mundo, tentando cativar apoios dos fundos internacionais. A Telefónica tem uma vantagem. Há cerca de 15% de investidores na PT que também detêm posições na Telefónica, e que devido à desproporção entre as duas empresas ganham mais, em valores absolutos, com a operadora espanhola do que com a portuguesa.

A PT tem utilizado dois argumentos: por um lado, a performance da empresa e os dividendos distribuídos, provando a excelência da sua equipa de gestão; e, por outro, que sem a Vivo não será possível manter o ritmo de crescimento conseguido até agora.

O acolhimento do discurso da PT junto dos investidores internacionais deixou a Telefónica suficientemente nervosa para, a escassos sete dias da assembleia geral, fazer uma operação muito pouco respeitável: vendeu cerca de 8% das suas ações na PT a três 'compagnons de route'. Valbuena começou, aliás, por dizer ao "Financial Times" que se tratava de um venda efetiva; foi depois obrigado a corrigir a informação, dizendo que se tratava de um parqueamento de ações.

A operação visa antecipar uma recusa do presidente da assembleia geral da PT de que a Telefónica vote uma proposta que é do seu próprio interesse. Assim, fica torneado o obstáculo - isto, claro, desde que o presidente da assembleia geral e a CMVM aceitem este desvirtuamento das regras, com o aparecimento, à última hora, de três acionistas pintados: a UBS, conselheiro da Telefónica na operação; a Sociétè Générale, onde Valbuena trabalhou; e o Mediobank, sócio dos espanhóis na Telecom Italia.

Ora até agora a PT resistiu a utilizar o seu fundo de pensões para entrar nesta refrega; e também não recorreu ao discurso nacionalista. Por isso, se a proposta da Telefónica for derrotada, a vitória será ainda mais saborosa. Mas uma coisa é não fazer jogo sujo para responder a quem o pratica, outra é aceitar que os árbitros permitam todos os golpes ilegais de quem atua com a pesporrência castelhana do quero, posso e mando. Talvez partam os dentes. Já houve surpresas maiores.

Ensinamentos da Galp

A luta acionista que se está a travar na Galp parece indiciar uma aliança luso-brasileira em detrimento dos investidores angolanos. Com efeito, a confirmar-se que a ENI venderá os seus 33% à Petrobras (25%) e à Caixa Geral de Depósitos (8%), isso terá certamente repercussões nas relações de Luanda com Lisboa e Brasília. É bom não esquecer que Manuel Vicente, presidente da Sonangol, afirmou que queria entrar diretamente no capital da Galp. E percebe-se que a empresária Isabel dos Santos, filha do Presidente angolano, não desdenharia fazer o mesmo, até porque a associação minoritária a Américo Amorim na Amorim Energia já conheceu melhores dias. Por isso, veremos se a visita oficial que o Presidente José Eduardo dos Santos efetuou esta semana ao Brasil se traduzirá em alguma reviravolta neste negócio.

Na prática, contudo, ele já se traduz numa mudança de atitude do Governo português em relação ao investimento angolano. Lisboa dá um sinal claro de preferir o capital brasileiro ao que vem de Luanda. Faz bem. Trata-se de um investimento mais estruturante e industrial (casos da Embraer, Cimpor e Galp) do que meramente financeiro. Mas é bom estar preparado para a retaliação.

Carneiro na Ongoing

Fernando Soares Carneiro era administrador da PT responsável pelas aplicações do fundo de pensões da operadora. A sua imagem ficou riscada quando se soube que tinha autorizado a aplicação de dezenas de milhões de euros num fundo da Ongoing sem passar pelo crivo do comité de investimentos. E foi obrigado a demitir-se quando foram conhecidas conversas anteriores entre ele e outro administrador do Estado na PT, Rui Pedro Soares, visando a compra da TVI com o objetivo de afastar o diretor da estação, José Eduardo Moniz, e a pivô do "Jornal de Sexta", Manuela Moura Guedes. A PT desistiu da compra e a Ongoing avançou. Pelo meio, contratou Moniz, mas a compra falhou. Agora sabe-se que Soares Carneiro foi contratado pela Ongoing. Seria bom ouvir alguém do mundo empresarial a denunciar este escândalo. Mas o silêncio ensurdecedor é a regra.

Patrões a uma só voz

Na segunda-feira, o presidente da AIP, Rocha de Matos, dizia-se muito feliz por ter contribuído decisivamente para unir os patrões portugueses numa única estrutura. Tinha razões para isso. Nos últimos seis anos foram várias as tentativas para atingir esses desiderato e nunca se chegou a bom porto. Agora, foi de vez. CIP, AIP e AEP juntam-se debaixo do chapéu da CIP-Confederação Empresarial de Portugal, que assume as funções de natureza institucional, de representação e de lóbi das três associações, com António Saraiva, atual presidente da CIP, a assumir a liderança da nova estrutura. Além de Saraiva, também Rocha de Matos e José António Barros merecem ser congratulados: souberam colocar os interesses do empresariado acima dos seus. Mas o mais importante é que, ao fim de quase quatro décadas, o patronato passa a ter uma voz única, que lhe permitirá uma intervenção mais forte e competente em Portugal e Bruxelas. Ou, como dizia Armindo Monteiro, vice-presidente da CIP, uma intervenção que traga para cima da mesa os interesses das empresas e não o folclore. É isto que se espera de uma confederação patronal: defesa das regras de mercado e de uma economia competitiva. A partir de agora, já sabemos a que porta bater para ouvir propostas nestas matérias.

Longa vida ao mexilhão do rio

O Ministério do Ambiente chumbou a construção da barragem de Pedroselos, no Alto Tâmega. Motivo: a descoberta de que ali vive uma espécie em vias de extinção, conhecida por mexilhão do rio.

Não sei o que mais admirar: se o Ministério do Ambiente, que nunca tinha dado por que no Alto Tâmega se desenrolava este drama; se a Iberdrola, que ao investir ali, alertou para a tragédia; se o próprio mexilhão, que mesmo à beira da morte, conseguiu fazer ouvir a sua voz desesperada.

Interroga-se o leitor: mas que importância transcendente tem o mexilhão do rio para Portugal? Não se sabe. Mas o certo é que a Iberdrola, que já pagou €303 milhões ao Estado português pela construção de quatro barragens no Alto Tâmega, ou constrói esta noutro local ou redistribui a potência das outras quatro por apenas três. Isto, claro, se nas margens das outras não se descobrir que uma raríssima pulga da areia está em vias de extinção... Decididamente, o ridículo não mata. Mas custa imenso tempo e dinheiro.

Eu comi uma inglesa. Foi em Sintra. Era feriado. Com esparregado e essa tinta mint-sauce. Em português, molho de hortelã-pimenta Com vinagre. Uma beleza! (...) Loira, era loira a inglesa que eu comi... Verde, devia dizer. Branca-rósea, uma camélia que eu comi, ou que colhi. Já nem sei... A savage Lusitanian, Dei-lhe só o que ela quis. Ou queria... Com peitinhos de perdiz E alguma poesia (...) Ruy Cinatti, À memória de António Nobre e Cesário Verde

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010