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Expresso

Nicolau Santos

O que a crise ensinou à Sonae e ao BCE

Uma recente entrevista do presidente-executivo da Sonae, Paulo Azevedo, mostra que a crise ajuda as empresas poderosas a tornarem-se mais humildes. É evidente que essa humildade pode decorrer do facto de Paulo ter substituído no cargo o pai, Belmiro de Azevedo. E Belmiro tem um estilo bastante mais abrasivo que o filho. Por isso, a Sonae tem sido penalizada por quase todos os Governos: porque Belmiro diz o que pensa, num país onde estar calado e nunca manifestar uma opinião é uma forma segura de subir na vida.

Mas olhando para o que se passou há dois anos, a pergunta é: o que seria hoje da Sonae se a OPA que lançou sobre a PT tivesse tido sucesso? Com o altíssimo endividamento que a operação pressupunha, se a venda de uma das redes fixas demorasse mais do que o previsto e o preço não fosse o pretendido, é mais que certo que a Sonae ou já se tinha desfeito da PT, por inteiro ou aos bocados, ou tinha ela própria sido comprada, estrangulada pela subida dos juros a que entretanto se assistiu. Aliás, como Paulo afirma na referida entrevista, "às vezes fico mesmo contente, contente, contente por não ter subido o preço". Percebe-se.

Mas percebe-se mais. Percebe-se que a Sonae percebeu que uma OPA hostil exige muito dinheiro, um consumo absurdo de energias e um enorme desperdício de tempo, sendo incomensuravelmente grande o risco de insucesso. Por isso, Paulo Azevedo hoje é claro: "nunca faríamos uma OPA à Zon sem sermos convidados". Entende-se.

E entende-se mais. Entende-se que a Sonae percebeu que o perfil que tinha a afastava de negócios partilhados. A Sonae sempre quis mandar sem discussão nos projectos onde se meteu, ser o sócio maioritário, tratando por vezes mal os accionistas minoritários. Por isso, Paulo Azevedo diz agora o que o pai nunca disse: que a Sonae aceita estar em projectos, mesmo sem ter a maioria. Preto no branco: "Temos tido muito empenho em demonstrar, quer aos accionistas da Zon, quer ao Governo, que saberemos ser um accionista que sabe partilhar poder, sentar-se à volta da mesa e gerir as coisas com bom senso". Ou então: "muitas pessoas no Governo ainda têm dúvidas se a Sonae se juntará realmente à volta da mesa para ser um sócio como os outros sócios". Ou ainda: "temos imensas alianças em que ainda somos minoritários".

Finalmente, um recado para este (e futuros) Governos: "outra coisa que é mais complicada é uma certa percepção de que a Sonae é força de oposição, uma força independente e política, que se opõe aos Governos. Também temos demonstrado que somos independentes e frontais, mas não somos força política, muito menos oposição".

Traduzindo em miúdos, a Sonae percebeu que em Portugal há certos negócios que só se fazem com o ámen dos Governos, pelo que não é possível estar sistematicamente incompatibilizado com eles. Desde que falhou a OPA sobre a PT, a Sonaecom definiu uma estratégia de fusão com a Zon. É obviamente o caminho para, como Paulo Azevedo diz, "rapidamente construir um mercado muito bem balanceado e competitivo". Ou, já agora, salvar a Sonaecom, que no actual quadro nunca passará do limbo de ser o terceiro operador de telecomunicações em Portugal.

Por todas estas razões, a Sonae tem hoje outra pele: mudou de natureza.

P.S. - o Banco Central Europeu fez o maior corte das taxas de juro desde que foi fundado. Ao fazê-lo, mostra que também mudou de natureza: o BCE já não se preocupa apenas com o nível dos preços na zona euro, mas também com a recessão económica que se vive na Eurolândia. É uma mudança e tanto. O BCE aproxima-se do modelo da Reserva Federal norte-americana. E dá também um sinal claro de que a situação é muitíssimo preocupante. Ainda não há a consciência de que se os bancos não fizerem chegar o crédito às empresas e às famílias, em menos de dois meses muita gente vai colapsar, entrando em incumprimento quanto aos seus compromissos.

É bom que não se atinja esse ponto. Porque se tal acontecer, a recuperação vai ser muito mais lenta e a factura social a pagar muito maior. As garantias que os Estados estão a dar aos respectivos sistemas financeiros visam precisamente evitar esse colapso.

Ler os sinais angolanos

Angola é o único mercado, dos cinco maiores parceiros comerciais portugueses, para onde as exportações nacionais estão a crescer. É pois natural que as empresas portuguesas, confrontadas com a quebra acentuada das suas vendas para o exterior, olhem para aquele país como uma bóia de salvação. Mas, como sublinhava Luís Todo-Bom (Expresso, 22.11.2008), nem as autoridades e a comunidade empresarial angolanas apreciam estas estratégias de curto prazo, nem isso serve os interesses das relações luso-angolanas.

Para as empresas portuguesas, Angola tem de ser uma aposta de futuro, o que implica o estabelecimento de parcerias locais estáveis e uma enorme responsabilidade social para com aquele país.

Para isso, é preciso saber ler os sinais nas notícias mais simples. No boletim de Novembro da KPMG, 'Mukanda Económica', constata-se que 1) José Eduardo dos Santos criou a 20 de Novembro uma comissão instaladora do Fundo Soberano Angolano; 2) foi exonerada a administração da TAAG; 3) está já em funcionamento a ligação aérea directa Luanda-Pequim bi-semanal; 4) a população angolana atinge 45 milhões em 2050.

Ou seja, Angola vai apostar na sua internacionalização, agora de forma estruturada, através do Fundo Soberano - e Portugal será um alvo. Eduardo dos Santos perdeu a paciência com a administração da TAAG, por não ter resolvido "os obstáculos operativos e de segurança" alegados para a exclusão da companhia do espaço aéreo europeu. Depois, Pequim é cada vez mais um parceiro incontornável para Luanda. E a população angolana vai crescer exponencialmente. Muitas e variadas razões para apostar em Angola - mas com projectos a médio e longo prazo.

Nicolau Santos