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Expresso

Nicolau Santos

O furibundo dr. Cadilhe

Miguel Cadilhe foi ao parlamento arrasar o Governo e o Banco de Portugal - e quase todos os nossos ilustres deputados abanaram a cabeça, como se a verdade do ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva fosse a única e à prova de bala.

Ora o dr. Cadilhe tem razões que a razão conhece: está furibundo porque lhe nacionalizaram o banco que ele se considerava capaz de salvar. Pode ou não ter razão. Nunca o saberemos. O que sabemos de ciência certa é que o dr. Cadilhe queria 600 milhões do Estado, a remunerar a uma taxa baixíssima e com um largo período de carência para atingir o seu desiderato. O ministro das Finanças entendeu que esse não era o plano que melhor defendia os contribuintes. A seu favor Teixeira dos Santos tem o facto da Caixa Geral de Depósitos já ter metido na instituição praticamente o dobro do que Cadilhe pretendia. Conclusão: ou o dr. Cadilhe é um supergestor ou as contas que elaborou estavam dramaticamente erradas.

Diz o dr. Cadilhe que houve motivos políticos que levaram o Governo a decidir-se pela nacionalização. Lamentavelmente, não explicou quais. Era para proteger quem? O dr. Dias Loureiro? O genro do sr. Aznar? A Presidência da República? Seria muito bom que Cadilhe dissesse o que leva um Governo do Partido Socialista a proteger um conjunto de pessoas, por acaso todas ligadas ao Partido Social-Democrata.

Atira-se o dr. Cadilhe à supervisão, que terá falhado de forma grave e demorada. Primeiro, recordemos o dr. Cadilhe que ele integrou a administração do BCP, onde nas suas barbas terão sido criadas 17 off-shores e feitas várias operações ilegais de compra de acções próprias, sem que alguma vez tenha dado por isso. Extraordinário!

Com a convicção que o caracteriza, o dr. Cadilhe avoca para si a glória de ter colocado ponto final a todas as malfeitorias no BPN, de ter elaborado o inventário dos prejuízos, de ter feito a denúncia às autoridades. Aqui, mais uma vez, os nossos deputados esqueceram-se de lhe perguntar como é que então comentava as palavras do procurador-geral da República, ouvido na mesma Câmara, segundo as quais foram as denúncias entregues pelo Banco de Portugal que permitiram ao Ministério Público avançar nos processos contra a administração do BPN, que concluíram na prisão preventiva de Oliveira Costa. E os nossos deputados esqueceram também o que Vítor Constâncio lhes provou: que foi Abdool Vakill, através de uma carta enviada a 2 de Junho de 2008 ao Banco de Portugal, que confirmou que o Banco Insular pertencia ao BPN e que existia um balcão virtual, por onde se terão escoado €750 milhões em operações fraudulentas. E que por carta de 4 de Junho, o Banco de Portugal obrigava o BPN a meter toda esta situação no balanço e a certificar as contas através de um auditor externo.

Queixa-se o dr. Cadilhe que o Banco de Portugal o deixou tomar posse sem o avisar do que ia encontrar no BPN. Esquece-se o dr. Cadilhe que o BdP não o podia informar de nada que se passava no banco antes de tomar posse, sob pena de falha legal grave, em matéria deontológica e de sigilo profissional. Mas ou estamos enganados ou Oliveira Costa é amigo e foi secretário de Estado do dr. Cadilhe, quando este foi ministro das Finanças? Não lhe telefonou? E os accionistas que o convidaram não lhe disseram nada? E porque nunca falou o dr. Cadilhe com o anterior presidente, Abdool Vakil? Isso sim, não é uma falha gravíssima?

O problema é que o dr. Cadilhe, que tinha perdido as eleições para dirigir o BCP, estava desejoso de mostrar ao mundo em geral, e a Portugal em particular, as suas enormes qualidades como banqueiro e tinha a certeza absoluta de que conseguiria tirar o banco do buraco onde ele estava, fosse o que fosse que lá encontrasse.

Como as coisas não correram como planeou, o dr. Cadilhe está furibundo e dispara para todos os lados para provar que, com ele à frente da instituição, o futuro seria radioso. Infelizmente, não vai ser possível comprovar as certezas do dr. Cadilhe. Mas com tantos bancos em situação periclitante, é de esperar que dentro em breve o dr. Cadilhe volte a ser chamado a salvar uma instituição. E aí é que o mundo vai ver a injustiça que contra ele foi feita no caso BPN!

Economia e Segurança nacional

Países que gastam mais do que têm são como famílias na mesma situação: ou equilibram os orçamentos ou têm de começar a vender as jóias para pagar o que pediram emprestado.

A dívida externa do país representa mais do dobro da riqueza que produzimos anualmente. Estamos em 18º lugar entre 57 países no que se refere à maior dívida em valor absoluto; em 7º na maior dívida em percentagem do PIB; e em 14º na maior dívida per capita. Fossemos os Estados Unidos e teríamos de nos preocupar. Como somos Portugal, temos de estar preocupadíssimos. Mas como se resolve a questão?

Quanto ao Estado, a tentação de aumentar impostos em vez de diminuir despesas é sempre grande. Mas quando se atinge o limite em que os cidadãos dificilmente aceitam novos aumentos da carga fiscal e cortar despesas dá muito trabalho, opta-se por vender empresas públicas ou participações do Estado nessas empresas.

É aqui que entram as questões da segurança nacional. Há cinco sectores fundamentais numa economia moderna: água, energia, telecomunicações, banca e comunicação social. Vender as principais empresas desses sectores a estrangeiros é um risco que coloca em causa a soberania nacional e a capacidade do Estado intervir na economia através delas quando for necessário.

O risco aumenta quando se suspeita com fundamento que há investidores portugueses a comprar empresas portuguesas com dinheiro estrangeiro. Podem não ser meros testas-de-ferro, mas ocultam a verdadeira natureza dos interesses que estão por trás. E há estrangeiros fora da União Europeia a entrar directamente em várias empresas portuguesas. Na comunicação social. Na banca. Na energia.

Um dia destes acordamos e descobrimos que as maiores empresas portuguesas já não estão em mãos nacionais. Se não quisermos fazer nada, resta-nos rezar para que os futuros donos sejam gente decente e idónea. Se quisermos outra solução, então temos de trabalhar para encontrar os meios que nos permitam reduzir o nosso crescente endividamento externo.

Rating: de regresso e sem vergonha

A Standard & Poor's anunciou que pode vir a rever em baixa o rating da República, pois Portugal caminha para uma recessão com derrapagem do défice orçamental. A isto, que é uma evidência para todos os países europeus, a S&P junta-lhe razões políticas (o PS pode não ter maioria absoluta nas eleições legislativas) e razões próprias (o elevado peso da dívida e os grandes desequilíbrios), acompanhadas da receita: moderação salarial e aposta na educação.

Quanto às receitas, estamos conversados. Se alguém encontrar algum texto da S&P que não recomende moderação salarial em Portugal, dá-se um doce. E se não disser também que é importante apostar na educação, dá-se dois doces.

Quanto à análise, em primeiro lugar há factores idênticos para vários países: recessão e degradação orçamental. A razia vai da Inglaterra à Alemanha, passando pela França. Mas convém lembrar que, em relação ao custo da dívida pública da Alemanha de taxa fixa a 10 anos, a Grécia paga mais 200 pontos, Irlanda mais 150 e Itália mais 130, contra 95 a 100 pontos da dívida portuguesa (e 90 da Áustria e Bélgica e 85 da Espanha...).

Em segundo, desconhecia-se que agora a S&P associa alterações no rating a situações políticas que ainda não aconteceram. Quem garante à S&P qual é o resultado das eleições legislativas portuguesas? Tem uma bola de cristal? Um modelo econométrico que desta vez é que não falha? Ou joga os búzios?

Em terceiro, a S&P deve ter-se esquecido do rating que atribuía à Islândia no dia anterior ao país ter entrado em falência. E os ratings que atribuía à Lehman Brothers, à AIG e por aí fora? Eram altos, muito altos - imediatamente antes de a primeira falir e de a segunda ter necessitado de uma forte intervenção governamental para sobreviver...

Por isso, se fosse atribuído um rating à empresa de rating S&P ele seria baixo, muito baixo. Triplo B negativo. Ou menos. O que é lamentável é que, mesmo depois do clamoroso falhanço que as empresas de rating tiveram nesta crise, continuam olimpicamente a julgar países e empresas. E a influenciar negativamente a vida de milhões de pessoas.

Nicolau Santos