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Expresso

Nicolau Santos

O exemplo da Bial e de Luís Portela

O leitor conhece algum empresário português com persistência para apostar durante 14 anos na criação de um produto? E que para tal tenha investido €300 milhões nesse sentido?

Esperemos que haja muitos no país, mas agora sabe-se que tem pelo menos um: Luís Portela, presidente dos Laboratórios Bial, que na semana passada viu reconhecido internacionalmente o sonho por que tanto lutou - o licenciamento para os mercados canadiano e norte-americano do primeiro medicamento de raiz e patente portuguesa, um antiepiléptico patenteado em 1996, mas que começou a ser trabalhado desde 1993.

A história é exemplar sob todos os aspectos. Luís Portela é médico e tinha uma carreira pela frente, quando o pai faleceu de repente. Por isso, decidiu aos 27 anos (ou as circunstâncias decidiram por ele) colocar-se à frente do negócio fundado pelo avô, em vez de o vender.

A sua primeira vitória foi a autorização para os Laboratórios Bial comercializarem uma conhecida pomada analgésica e anti-reumática, o que lhe permitiu melhorar a situação da empresa. A segunda foi a tomada de consciência de que, a prazo, ou a empresa conseguia desenvolver um ou mais produtos próprios ou tornar-se-ia uma rede de comercialização das grandes multinacionais farmacêuticas, acabando por ser engolida por uma delas. A terceira foi a força de vontade de decidir fazer o seu próprio caminho, em vez de se entregar ao argumento fatalista das nossas poucas armas para lutar nos mercados externos. A quarta foi definir as áreas onde as possibilidades de sucesso eram maiores: fármacos destinados a doenças do sistema nervoso central, cardiovasculares e alergologia. A quinta foi criar condições para se rodear de um grupo de profissionais competentes, nacionais e internacionais (62% dos colaboradores da Bial são licenciados), e ter capacidade para os manter interessados no projecto. A sexta foi convencer os bancos a financiar um projecto de resultados muito incertos, exigindo pesados investimentos e com resultados a muito longo prazo. A sétima foi manter todos os dias a convicção necessária para estimular os colaboradores e levá-los a acreditar que o sucesso era possível.

Na semana passada, ao assinar um contrato para aqueles dois mercados, pelos quais os Laboratórios Bial vão receber 75 milhões de dólares numa primeira fase e mais 100 milhões numa segunda, ficando em aberto todos os proventos que virão dos mercados europeus, Luís Portela não realizou apenas o sonho por que tanto lutou. Deu também ao país um motivo de orgulho e aos empresários nacionais um excelente exemplo de que não estamos condenados à mediocridade, à incapacidade para concorrer externamente e à inevitabilidade das nossas empresas serem compradas por estrangeiros. É só, é tudo e é muito.

Luiz Pacheco, o iconoclasta genial

Tu bem dizias, citando Manuel da Fonseca: "Isto de estar vivo inda um dia acaba mal". Acabou no sábado, ao fim de 82 anos. Aproveitarias, contudo, para escrever uma última e irónica artigalhada: a Basílica da Estrela, os muitos que se foram despedir de ti, o carro funerário repleto de flores, o director do 'Avante!', José Casanova, a discursar na capela crematória do Alto de São João, como tu o fizeste prometer quando te inscreveste no PCP: "Com duas condições: quero levar a bandeira do partido no caixão. E quero discurso". Cinco mulheres, 17 filhos, contabilizaste em 1985, em entrevista a Baptista-Bastos. O vil metal foi sempre pouco: a pensão da Função Pública, um subsídio por mérito cultural, "fora as artigalhadas, os cravanços, ajuda dos meus filhos, dos mecenas, dos amigos". Editor de grandes autores, autor de textos notáveis: 'O caso do sonâmbulo chupista', 'O libertino passeia-se por Braga, a idólatra, em todo o seu esplendor', 'O Teodolito', 'A Comunidade', 'Os Namorados', 'Exercícios de Estilo'... Em 1994, aceitaste o meu convite para escrever no 'Diário Económico'. Em 1996, mudámo-nos para o 'Público'. Quando me demiti, fizeste o mesmo. "Entrei com o meu director, saio com o meu director". O gesto de um grande senhor.

Greenspan defende Vítor Constâncio

De repente, o governador do Banco de Portugal passou a ser acusado de tudo o que de mal se passa no BCP. É injustíssimo.

A primeira responsabilidade do Banco de Portugal é zelar pela estabilidade do sistema financeiro. Ora o banco central e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários estão a conduzir uma investigação ao BCP, após uma denúncia, sustentada em documentos internos, que deu entrada no BdP em 11 de Dezembro. Nos dias que se seguiram, os dois supervisores chegaram à conclusão de que havia indícios de irregularidades gravíssimas.

Contudo, o processo de averiguações está longe do final. Por isso, como havia apenas uma lista concorrente à assembleia geral de 15 de Janeiro, integrando dois dos actuais administradores, Constâncio ponderou o que devia fazer: deixar que a eleição ocorresse para dentro de um ou dois meses ter de inibir eventualmente o presidente (Filipe Pinhal) e um dos vice-presidentes (Christopher de Beck), lançando de novo o banco na instabilidade? Ou chamar alguns dos principais accionistas e dizer-lhes que havia esse risco?

Constâncio optou, e muito bem, pela segunda hipótese - até porque o maior banco privado português tem de proceder com regularidade à renovação de "funding" e de papel comercial no valor de milhões de euros - e se tal não acontecer, a situação será gravíssima não só para o BCP como para o país.

Na sequência desse encontro, surge uma nova lista, apoiada por esse grupo de accionistas e encabeçada por Santos Ferreira, presidente da Caixa Geral de Depósitos. Constâncio sugeriu esse nome? Não, de todo. Os accionistas perguntaram-lhe se a solução era boa? Não, de todo. Aliás, há meses que o nome do presidente da CGD aparecia nas páginas dos jornais como uma solução para liderar o BCP.

Resta a última questão. O BdP fez bem o trabalho de casa? Constâncio diz que as denúncias que havia nada têm que ver com a constituição de 17 "off-shores" do próprio BCP que não estavam reflectidas no balanço. Mas o BdP não deveria ter dado pelo facto? Em primeiro lugar, no sistema bancário português há 14 milhões de operações vivas de crédito - e não é possível ter um inspector atrás de cada uma. Em segundo, os auditores não sabiam das "off-shores", os colaboradores do banco também não, e mesmo três directores que fizeram perguntas não obtiveram respostas.

Finalmente, ouçamos o que têm para dizer os clássicos. "Por muito que alguns reguladores da banca se esforcem por promover o exercício saudável da actividade, é muito difícil descobrir uma fraude ou um desfalque sem que alguém tenha dado o alerta", escreve Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos durante 18 anos, pág. 399 da edição portuguesa do seu livro 'A Era da Turbulência'. Chega?

Nicolau Santos