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Expresso

Nicolau Santos

Na OPA do BCP, a derrota tem um nome e uma cara

O actual sistema financeiro português, um dos mais modernos e eficientes da Europa, deve muito a Jorge Jardim Gonçalves. O fundador e primeiro presidente do actual Millennium bcp construiu, a golpes de génio, aquele que é hoje o maior grupo financeiro português e o que tem a maior e melhor estratégia de expansão internacional. O crescimento do BCP assentou numa equipa jovem, ambiciosa, escolhida a dedo, com os melhores entre os melhores quadros do país, conhecidos um a um pelo presidente; na definição de uma estratégia inovadora, de segmentação do mercado por faixas de clientela, cada uma das quais teve direito a um tratamento específico; no lançamento de produtos inovadores; e à combinação do crescimento orgânico com o crescimento por aquisições. Nesta última vertente, o ADN do fundador do BCP mostrou-se pela primeira vez, a sério, com a dura luta pela aquisição do BPA. Mas também a CISF, o Banco Mello, o Pinto e Sotto Mayor e outros foram sendo engolidos por um "player" que mostrava ter algo pouco comum entre os banqueiros nacionais: o instinto assassino, para saltar em cima da vítima e engoli-la, quando ela se julgava a coberto de tais actos devido aos brandos costumes nacionais.

A economia portuguesa também deve muito a Jorge Jardim Gonçalves. Não só estimulou muitos dos mais conhecidos empresários do país a avançarem no crescimento dos seus grupos, como financiou esse crescimento, como acorreu em seu auxílio sempre que necessário, como no caso da Jerónimo Martins. Também lhes deu sucessivos exemplos da importância e do orgulho de manter em mãos nacionais os grupos entretanto surgidos ou já existentes. E mostrou-lhes, com o próprio exemplo do BCP, que depois da consolidação interna, era necessário crescer para lá das fronteiras nacionais.

Passaram, no entanto, 20 anos após a fundação do BCP. E como o império romano que foi incorporando os povos bárbaros que assimilou e um dia acabou por cair às suas mãos, o Millennium foi assimilando novas culturas, nacionais e internacionais — e alguns dos seus mais altos dirigentes passaram da busca diária da excelência à arrogância, da ambição ao sentimento de superioridade do seu modelo de governação, do trabalho árduo à ideia de que tudo lhes é devido e que nada pode obstar a um passeio triunfal até aos seus objectivos. E os percalços começaram a suceder-se, da saída de quatro administradores do banco, entre os quais o delfim do presidente, a importantes desaires internacionais, que levaram o grupo a passar por sérias dificuldades.

Talvez eles não tenham percebido, mas uma tal postura conduz ao autismo e não ao sucesso. No ataque ao BPI, o outro grupo financeiro cuja matriz profissional é idêntica à do BCP, mas cuja "praxis" é bastante diferente, quase diria antagónica, Jorge Jardim Gonçalves, obviamente o mentor e o cérebro da operação, cometeu um erro fatal: o de pensar que, no final do dia, o dinheiro compra tudo. Pela sua experiência e pelo conhecimento de muitos anos das pessoas ligadas ao BPI, quer na gestão, quer a nível dos accionistas, Jardim Gonçalves tinha não só a obrigação como o dever de saber que há quem dê pelo menos tanta ou mesmo mais importância a valores não materiais do que ao vil metal. Enganou-se redondamente ao tratar Artur Santos Silva, Olavo Setúbal, Roberto Setúbal e Carlos da Câmara Pestana como descendentes de Judas Iscariotes. Enganou-se redondamente ao pensar que o La Caixa e a Allianz se submeteriam aos milhões da sua oferta. Ficou certamente estupefacto por nem sequer terem aceite recebê-lo para ouvir aquilo que considerava ser uma proposta irresistível.

Jorge Jardim Gonçalves há-de passar à história como um dos maiores banqueiros portugueses. Mas no falhanço da OPA que o BCP lançou sobre o BPI, a derrota tem um nome e um rosto: o seu. E será da maior justiça que as responsabilidades não sejam lançadas sobre outrem.

Reflexões sobre o sucesso da JM

O ano tem sido pródigo em sucessos para a Jerónimo Martins (JM). As acções do grupo têm batido sucessivos máximos, caminhando para o quinto ano consecutivo de ganhos. A capitalização bolsista atingiu 2,6 mil milhões de euros, ou seja, mais mil milhões de crescimento nos últimos 24 meses e 750 milhões em 12 meses.

Há factores próximos que justificam esta evolução, mas nada disto teria sido possível se a empresa não tivesse percorrido o caminho das pedras nos últimos cinco anos, em que se recompôs do sério desaire que teve no Brasil, recentrou as suas actividades sobretudo no Leste e encontrou uma solução profissional, Luís Palha da Silva, que está a dar excelentes provas, para suceder ao líder carismático do grupo, Alexandre Soares dos Santos.

Hoje, a JM vê a sua aposta na Polónia ser coroada de indiscutível êxito, a tal ponto que o crescimento naquele mercado pode levar a que o grupo tenha de vir a equacionar, num dia muito distante, se não deve mesmo deslocar a sede para aquele país.

É por tudo isto que a JP Morgan considera a JM como "a maior história de crescimento" do sector do retalho europeu. Mas é bom, é mesmo indispensável lembrar que nada disto teria sido possível se, quando Alexandre Soares dos Santos foi pedir ajuda na altura em que o grupo estava em sérias dificuldades, Jardim Gonçalves, presidente do BCP, não tivesse confiado nem hesitado em apoiá-lo — ao contrário do que fez então António Horta Osório, presidente do Santander Portugal. Sem o apoio de Jardim Gonçalves, o grupo JM não existiria hoje ou, a existir, não seria propriedade de quem é, nem estaria a registar os actuais sucessos. São estes pequenos pormenores que mostram a diferença entre um centro de decisão nacional e outro que está dependente do estrangeiro.

Nicolau Santos