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Expresso

Nicolau Santos

Lá veio a casa abaixo outra vez...

A forte revisão em baixa do crescimento previsto para este ano prova que 1) a economia portuguesa nunca poderia ficar imune à crise internacional, como primeiro-ministro e ministro das Finanças nos andavam a tentar fazer crer; 2) que a situação é mais grave do que se supunha.

Com efeito, cortar a previsão de crescimento em quase um terço (31,8%), passando-a de 2,2% para 1,5%, é brutal e remete-nos para próximo do crescimento de 2006 (1,3%). Mas o mais grave é que, se este ano vai ser mau, o princípio do próximo marcará provavelmente a parte mais funda da crise, o que, por outras palavras, quer dizer que o crescimento em 2009 pode ainda ser pior que o de 2008.

Poderia ser diferente? Dificilmente. Mais de 70% das exportações portuguesas vão para a União Europeia, cujo crescimento também abrandou significativamente. Mais importante, o nosso principal parceiro comercial, a Espanha, para onde as nossas exportações estavam a crescer bem acima da média europeia, está igualmente num processo rápido de desaceleração, com consequências para as nossas vendas ao exterior.

Sem o motor da exportação, também não existe o do consumo interno, porque as famílias e empresas estão endividadas e receosas em relação ao futuro. Quanto ao investimento, tenderá a ser adiado, face ao encarecimento do crédito e à sua rarefacção.

Portugal sofre ainda dois outros choques: o da subida das matérias-primas, ou mais especificamente, dos produtos alimentares e do petróleo. A nossa balança comercial vive há longos anos profundamente desequilibrada e o endividamento dos agentes económicos no exterior é também muito elevado.

É certo que, nos últimos dois anos, a recuperação nas contas públicas torna o país mais preparado para enfrentar a crise. Mas uma coisa é estar mais bem preparado, outra é dispor de uma situação orçamental que lhe permita deixar flutuar os estabilizadores automáticos, tentando apoiar o crescimento com investimento e apoios públicos. E essa margem de manobra existe para Espanha mas não para nós. Deu apenas para descer um ponto no IVA, mas não dá sequer para descer outro ponto em 2009, pela simples razão que as receitas fiscais vão também levar um forte rombo.

Ora, como o peso das receitas fiscais na redução do défice não foi despicienda, é provável que, a par de um menor crescimento - e é preciso topete para dizer que, mesmo assim, o desemprego vai diminuir! -, o país também tenha de se confrontar com a agourenta profecia do comissário europeu Joaquin Almunia, segundo a qual, Portugal, que deixou o ano passado de estar na lista dos países com défice excessivo (acima de 3%), voltará a cair nessa situação já este ano.

Tudo somado, vamos passar pelo menos mais dois anos (este e o próximo) a crescer abaixo da média europeia: serão oito anos a divergir com a Europa!

Se esta situação será boa ou não para o Governo quando chegarem as eleições de 2009, é algo que dependerá da forma como o Executivo lidar com a frustração dos eleitores e com o opositor a Sócrates por parte do PSD. Mas o certo é que o Governo vai chegar às eleições com uma situação económica quase tão má como quando chegou ao poder. Não era isto que estava previsto pelos estrategas de S. Bento...

Foi alguém superior

Prossegue, em todo o seu esplendor, o inquérito parlamentar do PSD à supervisão do sistema financeiro, que visa essencialmente ajustar contas com o governador do Banco de Portugal.

Infelizmente para o PSD, as coisas não lhe estão a correr bem. Jardim Gonçalves, que seria supostamente quem daria cobertura à tese do grupo parlamentar social-democrata, criticou o inquérito que, disse, "fragiliza todos, supervisores e supervisionados", além do que "lançar dúvidas sobre a supervisão é lançar dúvidas sobre o sistema financeiro". Quanto às questões essenciais - criação de 17 "off-shores" e financiamento das ditas para compra de acções próprias - Jardim nada quis dizer por estarem a decorrer inquirições do Banco de Portugal sobre as matérias em apreço.

Sobre o financiamento e posterior perdão de dívidas de empresas do seu filho Filipe, já parece bem mais difícil de aceitar a tese de Jardim de que não sabia de nada. Mais: como o fundador do banco bem sabe, o secretariado do BCP envia para o Banco de Portugal a informação que os administradores lhe reportam sobre operações de crédito envolvendo familiares seus e a instituição. Por isso, se alguém aqui falhou, não foi certamente o secretariado. Mas parece que ninguém na comissão parlamentar pediu esclarecimentos claros sobre esta contradição para não incomodar demais o senhor engenheiro... É que o inquérito é contra a supervisão, perdão, à supervisão!

Última nota: depois das audições feitas, começa a concluir-se que as 17 "off-shores", que originaram prejuízos para o banco superiores a €600 milhões, foram criadas por um ente superior e desconhecido. Perplexa, a comissão de inquérito já pediu mais 60 dias para apresentar conclusões. E vamos ver se chega para tão difícil tarefa...

Furacão Vila Nova

Filipe Vila Nova é um gestor fascinante de ouvir e diferente a actuar. A sua tese é pragmática: pessoas infelizes rendem menos no trabalho. Por isso, é preciso que os trabalhadores se sintam estimulados e contentes quando vão de manhã para a fábrica - e tenham orgulho na empresa que lhes paga o salário. Mas não é possível chegar aí sem autoconhecimento. É esse autoconhecimento que permite às pessoas ultrapassarem muitas das suas limitações e desenvolverem todo o seu potencial. Por isso, o patrão da Salsa compra do seu próprio bolso livros de autoconhecimento ou de líderes espirituais (de Jesus Cristo ao Dalai Lama) que distribui pelos trabalhadores.

Como é óbvio, em nenhum livro de gestão das melhores universidades internacionais se encontra um método tão heterodoxo de gerir. E no entanto, Filipe Vila Nova arrancou com um projecto que tinha tudo para falhar. Não tem nenhum MBA, não tinha capital, arrancou com uma fábrica têxtil numa área onde se encontram grandes empresas portuguesas do sector e apostou na produção de calças "jeans", onde a concorrência é enorme.

Mas, como ele diz, não há barreiras quando a pessoa tem um objectivo. Pediu dinheiro a um banco português. Não lhe deram crédito. Conseguiu-o num banco espanhol. Hoje a Salsa está em 22 países, Filipe Vila Nova acaba de comprar a posição dos seus dois irmãos no negócio (o banqueiro que não lhe deu dinheiro para arrancar foi agora o primeiro a financiá-lo), reúne-se num próximo fim-de-semana com sete dos seus colaboradores mais próximos, com quem espera fazer um pacto de sangue, promete que vai surpreender o mercado com novas e espectaculares operações e garante que vai conseguir aquilo que sempre quis: tornar a Salsa uma marca global. Alguém duvida?

Nicolau Santos