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Expresso

Nicolau Santos

Houve muita gente a quem o ano correu bem

Num ano que termina com cara de enterro, é bom lembrar duas coisas: entrámos nele com bastante esperança; e apesar dos pesares, 2008 correu bem a muita gente.

Quais?, perguntará o leitor, influenciado pelos escândalos que se abateram sobre o sistema financeiro, pela queda da bolsa, pela espiral descendente da economia, pela intervenção dos Governos na economia.

Pois mesmo nos sectores tradicionais, o calçado teve um comportamento magnífico. As exportações cresceram 2%, apesar da feroz concorrência e da contracção dos mercados de destino. É verdade que um dos ícones desta indústria, a Aerosoles, enfrenta sérias dificuldades. Mas um líder como Artur Duarte, uma verdadeira força da natureza, encontrará certamente forma de dar a volta por cima.

Noutro sector dito tradicional, o de mobiliário, houve uma empresa nacional que se destacou. A Tema House exportou muito e bem, reforçando a sua imagem externa e as suas quotas de mercado. O segredo tem sido uma forte aposta no design.

Também na área das embalagens de plástico, a Logoplaste continuou a sua expansão internacional, aumentando o volume de negócios a uma taxa superior a 20%. Filipe de Botton e Alexandre Relvas continuam a ser uma dupla de sucesso.

Nas novas tecnologias e para surpresa de muitos, as empresas portuguesas estão a conquistar o mundo. O caso mais paradigmático, com a ajuda do Governo, é certo, mas sem menor mérito por causa disso, é a JP Sá Couto, que produz o computador Magalhães, um produto que alavancado pela PT e pela diplomacia económica já está em vários países africanos, no Brasil e na Venezuela.

Quem também registou um ano fantástico foi a Portugal Telecom Inovação, com o volume de negócios a crescer igualmente acima dos dois dígitos. O desafio que Zeinal Bava, presidente da PT, lançou a Alcino Coutinho e à sua equipa está a ter uma excelente resposta.

E que dizer da Critical Software, que além de se estar a desmultiplicar ganhou o Prémio Cotec Inovação? Gonçalo Quadros e a sua equipa estão de parabéns.

Alert, liderada por Jorge Guimarães, continua a fazer um trajecto extraordinário, penetrando em mercados tão exigentes como o americano e o espanhol e colocando o seu software de gestão para hospitais em diversas unidades desses países.

A Primavera e a Altitude são outros exemplos de empresas que, depois de conquistarem o mercado interno, se lançaram com êxito ao assalto dos mercados externos, com bons resultados. Outros nomes como a Outsystems, nDrive, ISA, FiberSensing e New Vision também não lamentam os resultados que obtiveram em 2008.

Nas biotecnologias, a Bial, liderada por Luís Portela, teve um ano de ouro, com o seu primeiro medicamento, um antiepiléptico, a ser reconhecido internacionalmente e a concretizar um acordo para passar a ser vendido no mercado norte-americano. Também a Alfama registou um 2008 muito bom, na sequência da "performance" que já vinha obtendo em anos anteriores.

O levantamento não é exaustivo e será certamente injusto para muitas empresas que conseguiram encontrar as fórmulas certas para responder a um ano que foi dominado, em grande parte, por preços anormalmente elevados das matérias-primas e produtos alimentares; por uma enorme crise financeira, que tem devastado bancos, seguradoras e fundos de investimento; e por um colapso brutal da economia real, que limita drasticamente o consumo, os investimentos e o comércio mundial.

O cenário que temos pela frente é, à primeira vista, dantesco. Nunca, ao mesmo tempo, 63% da economia mundial (Estados Unidos, Europa e Japão) entrou em recessão. Nunca como agora foram tão fortes os receios de estarmos perante uma deflação, que pode manter o mundo numa agonia económica sem precedentes. E, no entanto, perante este cenário, que pode estender-se até ao final de 2010, é mais necessário do que nunca dirigir toda a nossa energia, criatividade, vontade de lutar e persistência contra esta maré negra de pessimismo que nos ameaça com a morte por inacção.

É verdade que também nunca como agora foi tão formidável a intervenção dos Estados para manter as economias à tona de água, injectando dinheiro nas empresas, nacionalizando, aliviando a carga fiscal. E há ainda que contar com juros baixos e preços do petróleo, matérias-primas e bens alimentares a um nível muito inferior ao que atingiram no passado recente.

Nem tudo são, portanto, espinhos. E como estamos fartos de saber, em qualquer crise, por maior que seja, há sempre oportunidades. Esperemos que muitos consigam encontrar o caminho do Santo Graal. Esperemos que os empresários percebam que, também eles, têm uma enorme responsabilidade social, nomeadamente ao nível do emprego. Esperemos que os trabalhadores percebam que, em certos momentos, se pode e deve sacrificar o salário para manter o emprego. Esperemos que os bancos tenham aprendido a lição e se tornem mais transparentes para com os seus clientes. E esperemos que os Governos tenham a sageza de perceber quem deve ser apoiado e em quem não deve ser desperdiçado o dinheiro dos contribuintes.

Esperemos, enfim, que todos os que vivem nesta sociedade percebam que sair da crise não depende 'deles'. Depende de todos e de cada um de nós. E ou nos salvamos todos ou iremos quase todos para o buraco. E os que não forem não gostarão de viver aqui no futuro.

Nicolau Santos