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Expresso

Nicolau Santos

Erros da Sonae, má fortuna, amor ardente pela PT

Quando, a 6 de Fevereiro de 2006, Belmiro de Azevedo, Paulo Azevedo e Ângelo Paupério anunciaram o lançamento de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a Portugal Telecom a €9,5 por acção estavam longe de adivinhar que os encómios quase unânimes que receberam se iriam transformar, na decisiva assembleia extraordinária da passada sexta-feira, em aplausos entusiásticos aos que lutaram denodadamente para que a operação fracassasse.

Como foi possível que a Sonaecom desbaratasse em 13 meses o capital de simpatia que acumulou por causa do seu gesto corajoso contra uma empresa balofa e arrogante? Teve de haver vários erros decisivos.

O primeiro erro foi o de anunciar desde logo que a participação na Vivo era para vender. Para todos os efeitos, o mercado brasileiro é que tornou a PT uma verdadeira multinacional e lhe deu um cartão de visita tecnológico de grande qualidade. Sair do Brasil era o mesmo que reduzir a PT a uma companhia regional. Este tornou-se um factor incómodo.

O segundo erro foi o preço oferecido. Desde o início que passou a ideia que a Sonaecom queria comprar a PT pelo preço mais baixo que fosse possível, e várias foram as afirmações de que a empresa não valia sequer a oferta, embora o preço médio das acções se mantivesse sustentadamente acima dos €9,5. De tão martelada mas contrariada pelos factos, a insistência passou a ser lida como arrogância.

O terceiro erro foram as abrasivas declarações de Belmiro, chamando pedintes aos accionistas que afirmavam não vender a €9,5 e que a PT só valeria mais se descobrisse petróleo ou diamantes debaixo da sede da empresa. Nessa altura, as acções eram transaccionadas no mercado a mais de €10. A arrogância passava a roçar a jactância.

O quarto erro foi o aumento do preço para apenas €10,5, quando antes a PT tinha divulgado as contas, com a melhoria dos activos em mil milhões. Resultado: a compra da paz pela Sonae não valia mais um euro, mas apenas mais 10 cêntimos. Houve má leitura do mercado.

O quinto erro foi o anúncio da Telefonica, uma empresa blindada, de que votaria ao lado da Sonaecom pela desblindagem dos estatutos. Percebeu-se de vez que os espanhóis tinham um acordo para ficar com a Vivo. O incómodo aumentou.

Finalmente, quando a PT apresentou a sua última contraproposta, que contemplava a compra até 16,5% das próprias acções por um preço máximo de €11,5, a Sonae devia ter feito um último "forcing", aumentando o preço até €11. Custava-lhe, no total, mais €580 milhões, metade dos €1330 milhões que as acções da Sonae e da Sonaecom perderam entre quinta-feira da semana passada e a última terça-feira.

Quando se entra numa batalha como esta, deve-se estar pronto para arriscar tudo - ou então o melhor é não pensar no assunto. Assim, a OPA morre na praia, e o projecto de Paulo Azevedo (aposta nas telecomunicações em detrimento do imobiliário e distribuição) acaba destruído pelas idiossincrasias de Belmiro.

Mas a 6 de Fevereiro de 2006 havia outro personagem importante na sala do Ritz: António Horta Osório, presidente do Santander Portugal, banco que organizou e garantia o financiamento da operação, estimada em mais de €16 mil milhões. O Santander Portugal tinha, na altura, um enorme envolvimento com a PT (financiava mais de €900 milhões de dívida e quase €3 mil milhões de derivativos como contraparte), tendo um conhecimento profundo da operadora. Não foi bonito ter aceite o papel. Há mesmo acusações de violação de sigilo bancário e das normas éticas que devem reger a relação do banco com o cliente. O certo é que o Santander perde a OPA e perde o seu melhor e maior cliente em Portugal. É uma derrota demasiado pesada, e os responsáveis são António Horta Osório e Emilio Botín.

A Telefonica também perde com a posição que tomou. Rasgou uma parceria bem sucedida de dez anos no mercado português e agora não lhe resta alternativa senão sair de Portugal - e, de premeio, tornou-se muito mais difícil ficar com a Vivo no Brasil. César Alierta é responsável. Mas António Viana Baptista também sai chamuscado.

No plano institucional, os grandes vencedores são BES e Caixa Geral de Depósitos. Aumentam a sua posição accionista logo que esteja concretizada a operação de compra de acções próprias e vão certamente substituir o Santander como bancos de referência da PT.

A nível pessoal, há dois grandes vencedores: Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. O primeiro por ter mudado o perfil da companhia, dado sinais espartanos interna e externamente, passado a mensagem de que não serve nenhum senhor mas todos os accionistas e por ter delineado uma estratégia que saiu totalmente vitoriosa. O segundo porque convenceu os fundos de investimento de que era melhor para eles apoiar a proposta da PT do que a oferta da Sonaecom. Foi também aí, na inexperiência da Sonaecom em lidar com os mercados financeiros internacionais em contraponto à excelência de Zeinal Bava nesta matéria, que se decidiu o resultado da OPA.

nsantos@expresso.pt