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Expresso

Nicolau Santos

Aprender com Alexandre e a JM

A evolução do Grupo Jerónimo Martins nas últimas duas décadas permite colher um conjunto de ensinamentos para as empresas portuguesas.

O primeiro é que um grupo controlado por uma família não está obrigatoriamente em desvantagem em relação a empresas com grande dispersão de capital. A Jerónimo Martins tem demonstrado grande capacidade de crescer e de investir, como se viu no Brasil e na Polónia, bem como de se adaptar e corrigir estratégias. Não será esta a estrutura mais adequada à dimensão da maioria das empresas nacionais?

O segundo é que o exemplo inspirador do líder é fundamental para cimentar a cultura da organização. A saída do Brasil foi um severo desaire para Alexandre Soares dos Santos. A grave doença que enfrentou podia tê-lo levado a desistir. Mas não só ultrapassou o problema, como recolocou a JM a olhar para o futuro com grande optimismo. E os quadros do grupo respiram confiança e entusiasmo.

O terceiro exemplo tem a ver com a forma como se concretizou o processo de sucessão. Com sete filhos, alguns dos quais fortemente envolvidos em diversas áreas do grupo e reconhecidos profissionalmente pelos seus pares, Soares dos Santos não teria dificuldade em impor, no momento em que optou por se retirar para "chairman", o nome de um dos seus descendentes para CEO. Não o fez. Pelo contrário, está definido e aceite que quando o "chairman" é da família, o CEO não é e vice-versa. Esta clareza de ideias facilita certamente a missão de Luís Palha da Silva, que tem tido um excelente desempenho como CEO da companhia.

Em quarto, existe também um acordo segundo o qual nem Alexandre Soares dos Santos nem a geração que lhe sucede estão vendedores do negócio. A Jerónimo Martins é um grupo português, tem orgulho nisso e vai continuar assim por muitas décadas, porque a companhia pensa que tem uma responsabilidade para com o país onde nasceu. Se todos fossem assim, o nosso quadro económico seria certamente diferente.

O quinto exemplo é que a responsabilidade social da JM não é apenas para fora (o grupo é o maior contribuinte do Banco Alimentar contra a Fome, dá um grande apoio à criança e à velhice, oferece equipamentos a hospitais, etc). Há uma preocupação com os trabalhadores, que vai desde a formação a questões de saúde. E não deixa de ser relevante que um quadro que tinha tido um ataque cardíaco há uma semana tenha saído do hospital só para estar presente na inauguração da milésima loja da Biedronka na Polónia, voltando para o mesmo logo a seguir.

O sexto é que o grupo chegou onde chegou com as mesmas leis laborais e fiscais que enfrentam todos os investidores que operam em Portugal e sem nunca ter pedido ou recebido qualquer apoio do Estado português. É o elogio da iniciativa privada em estado puro.

O sétimo e último exemplo é que o grupo não olha para a concorrência com a tradicional mesquinhez e inveja nacional. Sobre a compra do Carrefour pela Sonae, Alexandre Soares dos Santos não só não contesta a operação, como considera que é fundamental que as empresas portuguesas ganhem dimensão interna para poderem concorrer externamente. E essa é a óptica com que a Autoridade da Concorrência deve olhar para estas operações.

Por tudo isto, o Grupo Jerónimo Martins é um magnífico exemplo para quem acredita na importância para o país dos centros de decisão nacionais.

P.S. - Na JM a pontualidade é genética. Tão genética que as reuniões não começam à hora marcada, mas um quarto de hora antes. Sempre. Se a regra fosse nacional, a produtividade aumentava em flecha...

Nicolau Santos