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Nicolau Santos

A OPA em que todos acabam por perder algo

As duas últimas semanas foram lamentáveis para quase todos os intervenientes na OPA da Sonaecom sobre a PT. O espectáculo tornou-se tão deprimente que a pergunta para quem assiste de fora é se o que está em jogo são dois projectos distintos para a maior multinacional do país ou se já é somente uma questão de satisfação de egos que determina toda esta violência verbal.

Talvez os analistas não tenham dado a devida importância à declaração de Belmiro de Azevedo quando anunciou a OPA: "Esta é a maior operação da minha vida". E talvez não tenham ligado isso ao facto de, há menos de um mês, o patrão da Sonae ter revelado que em Abril deixa o cargo de presidente executivo da Sonae, passando o testemunho a um dos seus quatro vice-presidentes. Para quem conhece o carácter de Belmiro de Azevedo e a sua carreira, facilmente conclui que a última coisa que ele gostaria era retirar-se levando no bolso uma muito mediática derrota.

É claro que a escalada verbal se tornou possível, em primeiro lugar, pelos longuíssimos meses, mais de um ano, de que a Autoridade da Concorrência necessitou para tomar uma decisão sobre a operação. Mas ela também é justificada porque o que está em jogo é muito mais que o controlo da PT - é o poder e capacidade de influência, bem como a alavancagem de muitos outros negócios de milhões e milhões que a operadora viabiliza. Finalmente, numa OPA em que estão envolvidas personalidades tão conhecidas, ninguém quer ser exposto a uma derrota com grande exposição mediática.

Se ganhar, Belmiro de Azevedo culmina com chave de ouro a sua brilhante carreira, que o tornou no melhor empresário português não financeiro. Se ganhar, Paulo Azevedo torna-se o sucessor indiscutível do seu pai à frente da Sonae e sai como o grande vencedor, porque foi ele que idealizou esta OPA. Se ganhar, António Viana Baptista, presidente da Telefonica Móviles e representante do grupo espanhol, vende a operação em Portugal, mas recebe de bandeja o controlo da Vivo no Brasil, uma ambição há muito evidenciada. Se ganhar, Henrique Granadeiro não só reforça as vitórias da sua gestão, que já obrigou a Sonaecom a subir por duas vezes a oferta, como fica com toda a PT a seus pés, além de reforçar a independência face a alguns dos accionistas. Se ganhar, Ricardo Salgado não recebe só por via accionista - mantém uma posição influente na operadora e continua a ser um dos bancos de referência a gerir as contas da PT.

Mas, quem quer que ganhe, já perdeu alguma coisa - uma imagem de seriedade, responsabilidade e elevação que toda esta violência verbal acabou inevitavelmente por riscar.

A AdC, a PGA e o macaco

A TAP acordou a compra da Portugália em Novembro de 2006. Passaram quatro meses e a Autoridade da Concorrência decidiu avançar para uma investigação aprofundada, já que na ponte aérea Lisboa-Porto só operavam as duas companhias. Há riscos de utilização do monopólio? Há. Mas não está o sector liberalizado? Está. Ou seja, nada impede que outras companhias explorem esta ligação.

Por isso, qual é a dificuldade da AdC em julgar rapidamente esta situação e em propor eventuais remédios? O que não se aceita é o arrastar da situação num sector ultracompetitivo, em que se perdem ou ganham oportunidades ao segundo. A Portugália continua a perder dinheiro - e os mais de 140 milhões de euros que a TAP ofereceu valem hoje menos.

Por força do negócio, a PGA já se viu constrangida a abandonar a aliança aérea que integrava, pondo termo aos acordos de "codeshare" com a AF, KLM e Alitalia até 24 de Março. E teria de compatibilizar com a TAP o programa de voos para o Verão e distribuí-lo pelos mega-sistemas de vendas em tempo útil. A demora arrisca-se a comprometer a próxima estação.

Aliás, as duas OPA e esta operação mostram que a AdC se preocupa imenso com os consumidores - mas nada com os prejuízos que a demora na sua decisão acarreta para as empresas. Para a AdC, isso são amendoins. Mas, como sabemos, quem os vai pagar depois é o macaco - que a AdC diz proteger com todo o desvelo.

nsantos@expresso.pt