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Expresso

Nicolau Santos

A importância de se chamar Durão

Esqueçam o folclórico mas muito genuinamente português "porreiro, pá", deixado cair por José Sócrates no final da conferência de imprensa onde foi anunciado o acordo a que os 27 chegaram sobre um novo Tratado Reformador da União Europeia. Mas não esqueçam a quem foram dirigidas as vernáculas palavras: José Manuel Durão Barroso. Não esqueçam que o palco, nesse momento, era compartilhado por dois portugueses: Durão Barroso e José Sócrates. E, sobretudo, não esqueçam as palavras de Sócrates poucos momentos antes, quando sublinhou quão importante será para "as nossas carreiras" (deles, dos dois) o acordo conseguido, que termina com um impasse de seis anos na União Europeia e culminará com a assinatura do Tratado de Lisboa, a 13 de Dezembro, no Mosteiro dos Jerónimos.

Com este êxito, Barroso ganhou definitivamente direito a um segundo mandato à frente da Comissão Europeia. E Sócrates vai capitalizar o acordo nas eleições legislativas de 2009, além de ficar com um excelente cartão de visita para um futuro cargo internacional.

Como foi sublinhado, a presidência portuguesa obteve um retumbante triunfo, conseguindo pôr de acordo 27 Estados sobre a forma como a integração europeia deve avançar. Que tenha sido o Governo português a fazê-lo é certamente muito prestigiante para Portugal, mas também para Sócrates, Luís Amado e Manuel Lobo Antunes.

Contudo, é bom não deixar de fora os elogios a Durão Barroso (e a Maria de João Rodrigues). Ele foi fundamental no entendimento alcançado, foi o primeiro a propor que o tratado se chame de Lisboa, foi importante nos fundos que Portugal vai receber através do novo quadro comunitário de apoio. Para todos os que criticaram a ida de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia, abandonando o Governo português, esta é a melhor resposta: sem ele, o enorme sucesso que Portugal agora alcança ou teria sido bem mais difícil de concretizar ou nem sequer seria possível. O que prova que faz toda a diferença para Portugal ter em Bruxelas um presidente que fale português.

O jogo ainda não acabou

A proposta de fusão amigável entre BPI e BCP só foi possível pela enorme fragilidade accionista e de gestão em que se encontra o banco da Rua Augusta. De outro modo, não seria normal que um banco que vale €4,5 mil milhões atacasse um outro que vale €11 mil milhões.

Mas mesmo no quadro desta fragilidade, o banco liderado por Fernando Ulrich só avançou depois de o seu plano obter luz verde de Jardim Gonçalves - com a garantia de que será o presidente não executivo do Millennium BPI.

Está claro, contudo, que nesta operação quem manda é o BPI. É ele que impõe os termos do acordo - e que fica com a presidência executiva, além de impor o modelo de governação. O BCP está na defensiva, consciente da sua fragilidade e sem capacidade de reacção.

Mas também o BPI conhece a fragilidade da sua proposta. Fernando Ulrich reconheceu-o, ao admitir que avançou agora por receio de uma OPA hostil sobre o BCP. O problema é que esta proposta de fusão não trava os eventuais interessados em lançar um ataque ao BCP. E os rumores de que isso pode acontecer, numa operação vinda do país ao lado, continuam a ouvir-se com insistência no mercado.

A proposta do BPI não é tentadora pelo preço, mas sim pelo projecto que oferece: um grande banco, com gestão inequivocamente nacional e com presença importante em alguns mercados externos (Polónia, Angola, Grécia). Se os accionistas valorizarem este futuro, o Millennium BPI tem uma razoável possibilidade de se concretizar. Se optarem pelo preço, o destino do BCP será outro - e o resultado bem pior para o país.

Nicolau Santos