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Nicolau Santos

A estúpida decisão da Europa

Os severos cortes orçamentais que estão a ser praticados vão lançar a União Europeia numa recessão - que a Alemanha se prepara para agravar.

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

Além de estar velha e ter engordado, a Europa também ficou estúpida? A pergunta é perfeitamente legítima, depois da chanceler alemã, Angela Merkel, ter anunciado que o seu país vai adoptar um violento programa de austeridade, com cortes orçamentais de €80 mil milhões até 2013, para baixar o défice, actualmente superior a 5%, para 0,35% em 2016. Pelo caminho, ficou a promessa de, até 2014, cerca de 40 mil pessoas serem desmobilizadas das Forças Armadas.

Ora a sra. Merkel já demonstrou que é sobretudo uma contabilista - e uma má contabilista. Adiou até ao limite a aprovação de um pacote europeu de ajuda à Grécia para ganhar as eleições na Renânia-Vestfália - e perdeu-as. Agora, resolve cortar drasticamente no Orçamento alemão, quando o seu país não está sob ataque dos mercados nem se defronta com a imperiosa necessidade de obter financiamentos caros e escassos no exterior.

Ora acontece que ao tomar este caminho, a sra. Merkel lança a Alemanha numa via recessiva ou, pelo menos, num crescimento agónico. E o que a Europa mais precisa neste momento é que o seu motor seja pelo menos um pouco expansionista para poder ajudar a recuperação dos países em maiores dificuldades. De outro modo, os severos cortes orçamentais que estão a ser praticados um pouco por todo o Velho Continente vão acabar por lançar a União Europeia numa recessão e tornarão muito mais difícil a consolidação orçamental nos diferentes Estados-membros.

Claro que ser um jornalista a escrever algo que se mete pelos olhos dentro não conta. Mas se for uma autoridade como Teresa Ter-Minassian, que trabalhou durante 37 anos no FMI e tem uma larguíssima experiência a lidar com situações semelhantes (foi ela que liderou as equipas do FMI que elaboraram os dois acordos que Portugal assinou com o Fundo em 1977-79 e 1983-85), o caso muda de figura. Disse ela, em entrevista ao "Jornal de Negócios": "Não é apropriado que todos consolidem ao mesmo tempo e à mesma velocidade. A redução dos défices deve ser mais centrada nos países do Sul. Se a Alemanha se juntar, então o risco recessivo aumenta. Espero que os alemães se apercebam de que, se não derem o seu apoio para a saída da crise, então haverá problemas".

É tão óbvio que espanta que na equipa da sra. Merkel não haja ninguém que lhe explique esta evidência. E uma outra: a de que a desvalorização do euro face ao dólar vai impulsionar fortemente as exportações alemãs, pelo que, "no curto prazo, (as políticas alemãs) podem e devem ser relativamente expansionistas", acrescenta ainda Ter-Minassian.

Dito de outra maneira, depois de ter grandes responsabilidades no ataque brutal que os mercados lançaram sobre a Grécia, em primeiro lugar, e depois sobre Portugal e Espanha, a poderosa Alemanha prepara-se para cometer um novo erro e arrastar-nos para uma longa recessão, ao praticar os cortes orçamentais violentíssimos que anuncia. Sim, eu sei que a Grécia fez o mal e a caramunha. Que Espanha e Portugal também têm muito trabalho de casa para fazer. Mas todas as fragilidades foram potenciadas pelo calculismo da sra. Merkel e podem ser agravadas por novas opções erradas. A União Europeia está à beira do abismo - mas a sra. Merkel, como boa prussiana, vai dar um passo em frente.

Ir para fora ou ficar cá

As férias estão à porta. Circunspecto, o Presidente da República veio dizer que "passar férias cá dentro, nesta altura difícil, é também uma atitude patriótica" - uma frase que lembra os anos de brasa de 1975. Respondeu-lhe o ministro da Economia, Vieira da Silva: "Só espero que os Presidentes de outros países não façam o mesmo, senão perdemos uma fonte de receitas importante".

Os dois têm razão. Quem vai de férias ao estrangeiro gasta dinheiro lá fora. Em 2009 foram €2,7 mil milhões. Mas os turistas que nos visitaram deixaram por cá €6,9 mil milhões. Estamos pois a ganhar largamente. Podíamos não viajar para o estrangeiro. Mas isso não levaria a que os €2,7 mil milhões fossem gastos cá dentro.

Além de mais, a maior parte das férias ao estrangeiro são marcadas com largos meses de antecedência. O aviso, portanto, vem tarde. E como escreve Agustina Bessa-Luís, "as viagens inventaram-se para quem está triste. Se não houvesse pessoas tristes, não havia agências de viagens". Ora nós andamos tristíssimos e precisamos de viajar para espairecer, mesmo correndo o risco de ser apelidados de antipatriotas. Até porque se ficássemos, também não era por aí que se resolviam os problemas do país.

Estou com bad feeling

Carlos Queiroz é o sexto seleccionador nacional de futebol mais bem pago do mundo. Carlos Queiroz é o seleccionador de futebol de Portugal, país cuja média de rendimento per capita nos coloca em 30º lugar entre cerca de 190 países que existem no planeta. Eu espero, portanto, que Portugal fique pelo menos entre os oito primeiros classificados do Mundial de futebol da África do Sul, que para Portugal começa na terça-feira contra a Costa do Marfim. Qualquer lugar abaixo desse conduzirá à conclusão óbvia de que a Federação Portuguesa de Futebol está a pagar de mais ao seleccionador perante os resultados obtidos. Mas sendo o êxito futebolístico a primeira tarefa do seleccionador, a promoção de Portugal é a outra. Por isso, a escolha de 'I've gotta feeling", dos americanos Black Eyed Peas, para hino da selecção é lamentável. Por isso e não só, eu estou com um bad feeling.

A entrevista de Jardim

A entrevista com Jorge Jardim Gonçalves que o Expresso publicou na semana passada motivou fortes reacções dos reguladores e do Ministério Público. A crítica foi idêntica: demos voz a uma pessoa que está acusada de manipulação de mercado e falsificação de contabilidade, condicionando assim a Justiça. Ora, em primeiro lugar, não é ao Expresso que cabe provar estas acusações mas à Justiça. Em segundo, fizemos aquilo que devíamos ter feito: conseguir uma entrevista com uma pessoa que não tinha feito qualquer declaração desde que os processos se iniciaram e que muitos outros órgãos de comunicação social não desdenhariam de ter conseguido. Em terceiro, tentámos que a entrevista servisse para esclarecer a opinião pública e não para limpar a imagem do entrevistado.

Dizem-nos que a entrevista foi dada nesta altura para condicionar a Justiça. Como é óbvio, o problema não é nosso mas da Justiça. E uma Justiça que se deixa condicionar por uma entrevista a um jornal é certamente uma fraca Justiça. Ora, muito antes da entrevista, o que se assiste em anteriores processos mediáticos instaurados pelos reguladores é que estes perdem na primeira instância mas ganham na relação. Por quê? Os juízes da primeira instância são normalmente mais jovens e inexperientes que os da relação. E os réus importantes têm muitas vezes advogados de renome, que ao mesmo tempo ocupam posições no Conselho Superior de Magistratura, que por sua vez faz a avaliação dos juízes. Mais uma vez, o problema é da Justiça - não dos jornais.

Em qualquer caso, esclareçamos: Jorge Jardim Gonçalves foi condenado pelo Banco de Portugal à interdição de funções no sector financeiro por nove anos e ao pagamento de uma coima de um milhão de euros. Essa condenação decorre de investigações realizadas pelos técnicos e juristas do banco central, cuja credibilidade está acima de qualquer suspeita. A tese da conspiração (ou da novela, nas palavras do fundador do BCP) já foi utilizada antes pelo ex-governador Tavares Moreira, sujeito a uma sanção semelhante. Nos dois casos houve consequências para as instituições. No primeiro, desapareceu o CBI; no segundo, o BCP teve de provisionar em €300 milhões os prejuízos causados pela acção das offshores. São factos, não invenções. E são esses que Jardim tem de explicar cabalmente.

Última resposta para os reguladores: foi o Expresso que noticiou a existência de testas-de-ferro à frente das 17 offshores, bem como as dívidas não cobradas de empresas de um filho de Jardim ao BCP - numa altura em que os reguladores estavam a léguas do que se passava. Por isso, acusarem-nos de fazer favores aos criminosos é, no mínimo, irónico. E um bocadinho ridículo, convenhamos.

Encostara-se à cama. Devagar

tencionava arrumar os sapatos, olhava

o saxofone, o cinzeiro tão cheio, a seringa

vazia, os restos dessa morte prometida

todas as noites (...)

Não escutava a canção - nem ele nem eu

nem ela nem ninguém. Desaparecendo

de hotel em hotel, perseguia

a nota mais azul, a única razão,

o seu único fim. Para estar vivo

basta morrer, sentir essa ferida sem cura,

essa fome que nenhum corpo mata

e nos sorri às cegas.

Fernando Pinto do Amaral, Barney

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010