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Expresso

Nicolau Santos

A crise criada em casa ou o ovo da serpente

O que se temia há largos meses, aconteceu esta semana com estrondo: as bolsas caíram em dominó, em consequência de uma crise que tem epicentro nos Estados Unidos, em particular no seu sistema financeiro. Mas esta não é uma crise como as outras - e vários factos novos o comprovam.

O primeiro é que os Estados Unidos, que representam um quarto da economia mundial, passaram de importadores de crises alheias (mexicana, asiática, russa, argentina) a exportadores da sua, uma crise que está profundamente enraizada no seu sistema financeiro mas que também se espalhou pelo sector produtivo.

Não por acaso, as gotas de água que despoletaram a tempestade foram os prejuízos do Citigroup e da Merryl Linch, muito superiores às previsões mais pessimistas, confirmados depois por idêntica tendência no Bank of America, Apple e Motorola. A partir daí, instalou-se a convicção 1) que os Estados Unidos estão mesmo à beira de uma recessão; 2) que o sistema financeiro norte-americano está muito mais fragilizado pela crise do crédito imobiliário de alto risco do que se supunha. E como pelo caminho se constatou que também o sistema financeiro chinês e alemão sofreram com aquela crise, soltaram-se todos os demónios que estavam guardados nos mercados de capitais em todo o mundo.

O segundo dado novo é que para aqueles que sustentavam que uma crise nos Estados Unidos seria mais que compensada pela força das economias emergentes (chinesa, indiana, brasileira, russa), a prova está feita: o mundo apanha uma valente pneumonia quando o Tio Sam se constipa a sério.

Isso não quer dizer que uma recessão nos Estados Unidos leve inevitavelmente a China ou a Índia a entrar igualmente em recessão. Quer apenas dizer que, apesar da sua pujança actual, estas economias também são abaladas quando o gigante americano desfalece. O resultado final, contudo, será provavelmente aquele que o financeiro George Soros antecipa: "É mais provável que a actual crise financeira cause um realinhamento radical da economia global do que uma recessão global, vindo a verificar-se um relativo declínio dos Estados Unidos e a ascensão da China e de outros países em vias de desenvolvimento".

O terceiro facto novo, como também refere Soros, é que esta crise tornou evidente que as autoridades de supervisão deixaram de conseguir controlar os riscos dos produtos financeiros, cada vez mais complexos, lançados nos mercados pelos bancos, e seguiram o caminho mais cómodo: passaram a fazer fé no controlo de gestão de riscos dos próprios bancos. As outras redes de segurança do sistema também não funcionaram: os auditores, os revisores oficiais de contas, as agências de "rating", foram pelo mesmo caminho. E um dia, quando as coisas começaram a correr mal, toda a gente descobriu que as garantias existentes pouco valiam perante os milhões e milhões de créditos concedidos.

O quarto facto não tão novo como isso é que, em alturas de aflição, monetaristas, neo-liberais e até o Presidente Bush pedem auxílio a John Maynard Keynes. Vai daí, a Casa Branca anunciou um pacotaço de 150 mil milhões de dólares para estimular o consumo das famílias e aliviar o balanço das empresas, enquanto a Reserva Federal fez o maior corte de juros desde há 15 anos - o que, sendo positivo, demonstra também o pânico que se vive na FED.

O problema é que o clima psicológico de insegurança está solidamente instalado. Erradicá-lo a curto prazo não vai ser fácil. E em economia é fundamental e determinante a crença dos agentes económicos - como Keynes explicou detalhadamente.

Por outras palavras, o que Osama bin Laden não conseguiu com o atentado às Torres Gémeas em Setembro de 2001 foi agora alcançado com o rebentar da crise do "subprime" - uma crise criada e alimentada dentro de casa, como ovo da serpente.

Palavra de Presidente

No meio da turbulência económica que arrasou o mundo, Cavaco Silva veio dizer 1) que a economia portuguesa está mais sólida do que quando chegou a Belém há dois anos; 2) que Portugal dificilmente escapará à crise.

São palavras do mais elementar bom senso. Há dois anos, o país foi confrontado com um défice orçamental superior a 6% e um crescimento inferior a 1%. Agora, o défice estará em 2,5% e o crescimento próximo de dois. Isto, contudo, não nos abriga do vendaval externo, ao contrário da mensagem que o primeiro-ministro insiste em passar. As exportações vão sofrer com o abrandamento europeu e espanhol. O consumo estagnará. E os grandes investimentos previstos não chegam para compensar estas quebras. 2008 vai ser um ano difícil. E não há optimismo que tape esta realidade.

Bom senso prevaleceu

Depois de cinco horas a ouvir o governador do Banco de Portugal na comissão parlamentar de economia e finanças, o PSD terá decidido não avançar com um inquérito parlamentar para apurar as eventuais falhas da supervisão no caso BCP. Não interessa se foram pressões de Belém e dos notáveis do partido que fizeram recuar Luís Filipe Menezes ou o aviso de Francisco Louçã de que iriam desfilar por S. Bento muitas personalidades do "jet-set" durante meses e meses. O PSD não pode fragilizar instituições essenciais ao funcionamento da democracia por razões de guerrilha política. Ao contrário, o CDS-PP decidiu avançar. É a diferença entre um partido responsável e outro que nunca chegará sozinho ao poder.

Nicolau Santos