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Nicolau Santos

A batalha não está perdida

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

Zeinal Bava inicia na segunda-feira em Londres um novo périplo junto dos investidores internacionais da PT. Objectivo: convencê-los de que a compra da Vivo vale, para a Telefónica, bem mais que os €6,5 mil milhões que ofereceu, esperando assim que votem contra a proposta dos espanhóis na assembleia geral que vai decorrer no próximo mês.

É profundamente irónico que seja Zeinal Bava, acusado por alguns dos seus pares de ser um apátrida, a encabeçar a luta por manter a PT na Vivo; e é ainda mais irónico que o faça recorrendo aos investidores internacionais, nomeadamente os grandes fundos de investimento, em detrimento do núcleo-duro nacional de accionistas.

Na verdade, mais uma vez (e contra mim falo que muito me tenho batido pelos centros de decisão nacional), este núcleo-duro deu muito rapidamente sinais de que, se a Telefónica subisse a proposta, apoiaria a venda da Vivo. Primeiro, foi Ricardo Salgado, presidente do BES; em seguida, Faria de Oliveira, presidente da CGD. Disseram ambos a mesma frase: na vida tudo se vende menos a honra. Só que a venda da Vivo não é, para a PT, de somenos. Sem a Vivo, a PT deixa de ser uma média empresa multinacional e passa a ser uma empresa local. Sem a Vivo, a PT perde o seu motor de crescimento e a sua capacidade de atracção de talento. Sem a Vivo, a PT perde o seu cartão-de-visita para atrair grandes investidores internacionais. Sem a Vivo, a PT deixa de ter futuro e passa a ser candidata a uma futura compra.

Hoje em dia, o melhor que a PT tem são os seus trabalhadores e a sua equipa de gestão. São eles, verdadeiramente, que podem travar a compra da Vivo pela Telefónica. E se a proposta dos espanhóis for derrotada na assembleia geral, não tenhamos dúvidas de que terá sido a credibilidade e a argumentação de Zeinal junto dos investidores internacionais a garantir esse desiderato.

Convenhamos que a resposta da comissão-executiva à subida do preço (que os espanhóis disseram que não fariam) foi assassina: para a Telefónica, o valor da Vivo é muito superior ao que oferece. Colocada a questão nestes termos, não é à PT que cumpre justificar porque não aceita a proposta; é a Telefónica que tem de justificar porque não oferece um preço superior, dadas as sinergias com a rede fixa que daí retiraria.

A batalha, no entanto, será dura. A questão está agora nas mãos dos accionistas. Se a opção for aceitar, então há que pensar no dia seguinte. Distribuir esse dinheiro como dividendos ou fazer um share buy back será muito bom para os accionistas mas um suicídio para a PT. Uma coisa é certa: a decisão de vender não será uma derrota da gestão mas uma visão míope dos accionistas, em particular dos nacionais. Mas se se for por aí, há uma boa notícia: Zeinal Bava e a sua equipa estarão disponíveis para continuar, desde que seja para investir os 6,5 mil milhões e construir uma alternativa de crescimento à Vivo. E não é impunemente que se dispõe do melhor CEO europeu de telecomunicações e da média empresa europeia do sector com sistemático melhor desempenho quando comparada com a dos seus pares.

Por isso, embora se deva continuar a batalhar para que a PT continue na Vivo, a vida não acaba se houver venda. Uma excelente gestão, uma magnífica equipa e vários milhões podem dar uma nova vida à PT. Há vida para além da Vivo. Difícil, mas há.

Bem prega São Macário

Soube-se esta semana: 30 municípios estão falidos. Pode olhar-se para a notícia de duas maneiras: a positiva (são menos de 10% dos municípios portugueses) ou a negativa (mas a percentagem vai crescer rapidamente...). Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira, é que não teve papas na língua: a principal razão para as dificuldades das autarquias tem a ver com a criação de empresas municipais para dar emprego e pagar bons salários a políticos que não venceram eleições.

Era evidente que havíamos de chegar aqui. À medida que o Ministério das Finanças apertava o controlo às autarquias, estas criavam empresas municipais para escapar ao garrote financeiro. O poder local foi um dos ganhos da revolução de 1974. Mas a par de excelentes exemplos, também encontramos o que de pior o poder pode gerar.

É por isso que seria uma pedrada no charco se fosse a própria Associação Nacional de Municípios a separar publicamente o trigo de joio, em vez de ficarmos à espera do Tribunal de Contas ou de uma auditoria do Ministério das Finanças. Uma coisa é certa: as populações dos municípios falidos vão passar a viver com infra-estruturas degradadas. Era bom que, ao menos, soubessem que os responsáveis serão punidos.

Maquiavel e o ministro

O segundo pacote de medidas de austeridade para enfrentar a crise foi aprovado no Parlamento. A uma pergunta da deputada Assunção Cristas, do CDS, sobre se podia garantir que não haveria mais nenhum aumento de impostos este ano, o ministro das Finanças respondeu: "Esperemos que não". Está visto que Fernando Teixeira dos Santos não leu "O Príncipe", de Maquiavel, onde ele recomenda a qualquer governante: "É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado". Ora o que o Governo tem feito é exactamente o contrário: andamos a beber o frasco de óleo de fígado de bacalhau às colherzinhas e sempre sob a ameaça de termos de tomar outro frasco. Como é óbvio, vai acabar mal. Para o Governo, certamente. Mas infelizmente também para o país.

O Portugal que faz bem

Paulo Maló recebeu esta semana o Prémio Produto Inovação COTEC-Unicer pela técnica cirúrgica que inventou e que permite reabilitar pacientes desdentados totais em poucas horas. A grande novidade é que Maló, com uma enorme capacidade empreendedora, alavancou sobre a sua inovação um império de clínicas dentárias em todo o mundo, tendo construído em 15 anos o maior centro de Implantologia e Reabilitação Oral Fixa do mundo.

Outros quatro produtos desenvolvidos por empresas portuguesas receberam menções honrosas: BEST - Ultra Low Emissions, da Sonae Indústria; CREWS RTD, da SISCOG; Hurricane e ReCyclone, da Advance Cyclone Systems; e Retmarker, da Critical Health.

É este trabalho de estimular e premiar empresas e produtos inovadores, a par de portugueses que se afirmaram internacionalmente na área empresarial, que a COTEC tem vindo a desenvolver desde Abril de 2003, quando foi constituída sob o alto patrocínio do então Presidente da República, Jorge Sampaio, um trabalho que Cavaco Silva, até pela sua formação de economista, tem prosseguido com grande entusiasmo.

Recentemente, a conferência TEDxLisboa deu a conhecer dois exemplos notáveis: o trabalho desenvolvido por Joaquim Casado à frente da Junta da Freguesia da Ericeira, utilizando a reciclagem de produtos e óleos para apoiar e recuperar toxicodependentes. Quando começou como autarca dispunha de um jardineiro, um coveiro, dois administrativos, um carro de mão, uma pá, uma vassoura e um orçamento de €20 mil. Três mandatos depois, a junta tinha seis viaturas, duas máquinas retroescavadoras e 18 funcionários. Outro exemplo: o de Maria da Conceição, hospedeira da Emirates Airlines, que criou o Dhaka Project, capital do Bangladesh, onde apoia 600 crianças.

Ora no período que atravessamos é fundamental divulgar os muitos e variados exemplos positivos, que se vão desenvolvendo na economia e na sociedade portuguesas. Faço uma lista de empresas de sucesso que normalmente não aparecem nas primeiras páginas dos jornais: Alert, NFive, Critical Software, Têxtil Manuel Gonçalves, Lameirinho, Simoldes, Iberomoldes, Efacec, Fepsa, Stab Vida, Primavera, Bial, Grupo Pestana, Vila Galé, Janz, BA Vidro, YDreams, Logoplaste, Frezite, Renova, Nelo Kayaks, Frulact, Alfama, Altitude Software, Out Systems, WeDo, Brisa Space Services, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Hovione, Porto Editora, Luís Simões, Martifer, Novabase, Delta, Revigrés, Douro Azul, Cabelte, Queijo Saloio. E se elas são bem sucedidas, o que impede o país de ultrapassar as dificuldades e obter grandes sucessos?

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

Que partout, everywhere, em toda a parte,

a vida égale, idêntica, the same, é sempre

um esforço inútil, um voo cego a nada.

Mas dancemos, dancemos,

já que temos a valsa começada

e o Nada deve acabar-se também,

como todas as coisas.

Tu pensas nas vantagens imensas

dum par que paga sem falar;

eu, nauseado e grogue,

eu penso, vê lá bem, em Arles

e na orelha de Van Gogh...

E assim entre o que eu penso e o que tu

sentes a ponte que nos une - é estar

ausentes.

Reinaldo Ferreira, Um Voo Cego a Nada, 1960

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010