Siga-nos

Perfil

Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Uma noite em branco, escachado no cavalo de pedra da estátua do Marquês

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Onde o nosso Comendador nos dá a conhecer a vivência de um desses pobres de Cristo que vibram com o futebol, uma vez que o Comendador não gosta de bola, excepto quando o seu clube ganha.

Ele tinha uma grande fé e duas garrafas de champanhe. Logo às três da tarde pôs-se a caminho - foi a pé, para não ter o problema do carro depois do seu champanhe, do vinho dos outros, da cerveja dos convivas. Haveriam de berrar noite fora, e o álcool correria como os rios de mel no Paraíso (se é que o Paraíso tem rios de mel).

Cerca das cinco da tarde já lá estava. Como era cedo e ainda não havia ninguém pronto para a festa subiu o Parque Eduardo VII e viu a Feira do Livro. Estava cheia de pessoas que preparavam a comemoração da noite, embora disfarçassem com o interesse em literatura e em livros. Nada mais falso - por trás de cada barba de intelectual, ao lado de cada cachimbo de crítico literário, perto de cada par de óculos de literato havia um cachecol que mostrava o inevitável: haveria festa!

Cerca das sete foi para o pé da estátua e começou a subi-la pelo lado onde há dias estivera escrito reservado. Chegou ao dorso de um cavalo aparelhado, em nítido esforço, que ali está representado. A subida não foi fácil, tendo em conta o cuidado necessário para as garrafas não se estilhaçarem. Demorou nisso uma boa meia hora, pelo que deviam ser sete e meia quando - por assim dizer - montou o equídeo. Uns passantes, cá de baixo, mostraram simpatia com a acção e tiraram eles também os cachecóis e umas faixas e por ali se quedaram. Às oito, o seu coração batia de emoção. Às nove, sem notícias de ninguém, nem maneira de saber o que se passava, continuava com inabalável fé de que a festa seria rija. Um dos moinantes lá de baixo falava ao telemóvel e abanava a cabeça. De repente, olhou para cima, riu-se e gritou:

- Os gajos já só têm dez!

Vibrou de emoção. Estava no papo, não podia ser de outra forma. Foi então que o Marquês se virou para baixo e lhe perguntou:

- Olha lá, então o país está à beira da bancarrota, o primeiro-ministro anda às turras com o Presidente, o líder da oposição não se entende com o Governo, e a ti o que te interessa do país é essa porcaria do jogo?

E ele desfez-se em desculpas. Que era preciso diversão, que era preciso alienação, que o mundo era uma chatice e o país uma maçada.

- Grande português hás-de ser tu - respondeu-lhe o Marquês. - Se fosse no meu tempo, estavas tramado. Ias também ali para Belém, como os Távoras, e pronto.

O adepto ripostou que agora havia liberdade. Quem quer gosta de futebol, quem não quer não gosta, é assim.

- E, portanto, deixam um idiota como tu decidir? - perguntou o Marquês.

- Mais ou menos - disse o adepto.

- Ai é? - disse o Marquês. - Por isso é que há crise. No meio da desgraça, um idiota como tu compra champanhe importado, sem olhar a gastos! No meio de uma crise! O vosso problema é que qualquer idiota manda!

O adepto ficou silencioso. Na verdade havia uma crise grande, na verdade o país estava numa situação difícil, muito complicada, e logo ele tinha gasto tanto dinheiro na porcaria das duas garrafas de champanhe. Dinheiro produzido cá que foi para fora... É assim que se dá cabo de um país... Com festas e festarolas, com inaugurações de inutilidades, com tudo isso. O Marquês, que conseguia ouvir-lhe os pensamentos, concordou com ele. E o adepto, escachado no cavalo, sem vontade de descer, ali ficou, a noite em branco, a pensar no país. Quando lhe disseram que não havia festa, suspirou de alívio. E a noite passou-a ali, a pensar em mais um serviço que o Benfica prestara à pátria, perdendo o jogo e poupando uma festa...

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 8 de Maio de 2010