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Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Razões pelas quais um partido novo não é igual a um novo partido

Uma das duas questões do momento é o Natal que já passou. A outra é o Manuel Alegre que ainda não passou. Falarei, por isso, da segunda.

A última vez que falei com Alegre ele não sabia se ia fazer um novo partido, mas dizia estar a ser fortemente pressionado para o fazer. No entanto, na próxima vez que falar com ele sei, de antemão, que ele, muito pressionado, não terá a certeza se fará ou não um partido. Poderíamos pensar que Manuel Alegre é um homem indeciso, mas nada é mais falso. Alegre apenas não sabe ao certo o que há-de fazer.

Desde logo, fazer um partido, para além de todos os riscos que envolve, dá muito trabalho. É preciso recolher assinaturas, é preciso assinar, é preciso arranjar papel, é preciso ir ao Tribunal Constitucional, é preciso dar uma conferência de imprensa, é preciso fazer campanha e - sobretudo - é preciso não ter vergonha para fazer a campanha no meio de peixeiras e mercados, de feiras e ciganos, de intelectuais e de cafés, de ruas e de lojistas e, sobretudo, de partidos e militantes.

Mas o Manuel, tenho a certeza, é homem para arregaçar as mangas e fazer isto tudo - já não direi com uma perna às costas, mas, pelo menos, com uma cana de pesca às costas.

Os problemas vêm depois.

O Manuel é um homem sério. É mesmo dos homens mais sérios que eu conheço. É também dos homens mais sérios que ele próprio conhece e um dos homens mais sérios que os homens que ele conhece conhecem.

Não sei se os meus leitores seguem o meu raciocínio, mas o que eu quero dizer é que o Manuel Alegre é um tipo deveras sério. Daí as dificuldades em fazer um partido. Lembro outro homem sério, talvez tão sério quanto o Manuel, que teve uma série de dificuldades em fazer um partido: o general Eanes. Pois foi. O general fez um partido, mas começou logo mal: com assinaturas falsificadas. Claro que o general não teve culpa, penso até que ele ficou cheio de vergonha, escondido em casa, à espera que a vergonha lhe passasse. No fundo, foi este excesso de vergonha que deu cabo do projecto. Eis porque penso que o excesso de seriedade do Manuel vai dar cabo de um novo partido.

A menos que o Manuel faça um partido novo. Como todos sabem, a diferença entre um partido novo e um novo partido não é nenhum na aparência, mas é total na essência. Um partido novo não tem militantes, nem dirigentes, nem estruturas, nem direcções, nem líderes, nem nada disso. É uma rede inorgânica de gente que quer protestar contra isto tudo. E nisto de protestar é que o Manuel é bom.

Mas será que um partido novo, não tendo líderes, nem estruturas, nem dirigentes, nem militantes consegue ter muitos votos? Provavelmente não, porque o pessoal gosta muito de protestar, mas depois, no silêncio da cabine, vota Sócrates ou Manuela ou noutro partido qualquer do qual se sabe, mais ou menos exactamente, o que vai fazer (incluindo que vai mentir muitas vezes e defraudar o eleitorado outras tantas). Mas sobre um partido novo, rede inorgânica de gente a protestar, nada se sabe. Pode ser melhor, pode ser pior... e é por isso que o eleitorado se encolhe e, na indecisão, vota no costume.

Ora, o Manuel sabe isto tudo. Por isso é que ele não sabe o que há-de fazer. Ou fica com a rede e sem votos, ou com a rede, mas com a possibilidade de ser obrigado a ficar em casa duas semanas cheio de vergonha com as coisas que se vão passar. É uma opção difícil, um passo decisivo, um tormento intelectual.

Se eu fosse a ele, ficava indeciso. Por isso, é este o conselho que lhe dou: Manuel, mantém-te assim. O teu charme é, ao contrário dos outros, não saberes o que hás-de fazer e partilhares connosco essa indecisão.

Comendador Marques de Correia