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Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

O país sobrenatural

Lisboa, 24 de Abril de 2007

Sua Santidade o Papa Bento XVI

Escrevo-lhe com receio e humildade — não vá o diabo tecê-las — para lhe expor uma série de assuntos que têm vindo a ter lugar em Portugal e carecem, imediatamente, da intervenção daquele que é o representante de Deus na terra.

Em primeiro lugar — eu eu até nem liguei absolutamente nada — temos uma senhora (Alexandra Solnado de seu nome) que fala com Jesus. Ou melhor, parece que é Jesus Cristo que fala com ela e, depois, ela publica uns livros, por sinal mauzinhos, pormenor pelo qual muita gente se convenceu que, afinal, nem sequer é Jesus que fala com ela, mas talvez um tipo qualquer sem importância. Eu, pelo menos, é o que defendo.

Depois, soube-se que íamos ter um Cardeal à frente de um canal de televisão que lidera as audiências. É certo que o canal foi criado para satisfazer a Igreja Católica e também é verdade que, no início, esse canal era de inspiração cristã. Em certa parte continua a ser de inspiração cristã porque transmite uma missa ao domingo, mas o que mais o caracteriza é a expiração pimba e telenovelesca com umas historietas geniais em que há sempre dois irmãos que não sabiam, três ricos infelizes, uma família pobre e alegre e uma senhora que berra o tempo todo e é capaz de colocar um prédio em alvoroço. Eu tenho ideia, aliás, de que a TVI vai à frente nas audiências porque os inquiridos pensam que lhes estão a perguntar qual a televisão que ouvem mais. Se em vez de audiências perguntassem videoências era capaz de ir outra à frente. É que não há canal de TV em todo o mundo (incluindo a Espanha e o Canal Sur, da Andaluzia) onde se berre mais do que na TVI. Pois fique sabendo Sua Santidade que esse mesmo canal vai ser presidido por um Cardeal, mas um Cardeal laico, republicano e socialista, que é uma coisa tão bizarra como o PS ser dirigido por um católico, monárquico e personalista (coisa que, aliás — e tirando o monárquico —, já aconteceu).

Por último, e ainda no domínio do sobrenatural, temos que o genial e incontornável presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, avisa que o primeiro-ministro José Sócrates recebeu um castigo divino por ter cortado verbas àquela região autónoma. Ora, a coisa é tanto mais estranha que nós, portugueses, pensávamos que o castigo divino era termos de aturar o Alberto João, coisa que até vimos fazendo com alguma bonomia, compreensão e o respeito devido aos que não têm capacidade de autodeterminação.

Infelizmente, parece que a coisa está baralhada. Por isso, eu invoco a bênção e a compreensão de Sua Santidade para responder, cabal e totalmente, aos portugueses, na sua reconhecida qualidade de Sumo Pontífice, o seguinte:

1) A Alexandra fala mesmo com Jesus ou está a intrujar-nos?

2) O Cardeal Pina Moura na TVI é ou não uma ameaça inquisitorial daquelas já devidamente repudiadas pela Igreja?

3) Aquilo do Sócrates foi um castigo divino, ou não tem mesmo importância?

Aguardando uma resposta, sou um seu admirador e devoto

Comendador Marques de Correia