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Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Normas de fé e liturgia para Paulo

Lisboa, 20 de Março de 2006

Meu caro Dr. Paulo Portas

Quero, em primeiro lugar, pedir imensa desculpa por não me ter prostrado no chão quando decidiste ser líder da direita. Compreendo hoje que todo o eleitor, mais ou menos afiambrado às teorias do liberalismo, da social-democracia ou da democracia-cristã, tinha por obrigação exultar e comemorar a tua decisão de voltares à ribalta e comungar da tua sábia determinação em liderar a oposição a Sócrates.

Acho mesmo que deveria haver uma profissão de fé qualquer que separasse os puros e bons apoiantes teus, dos perversos e maus apoiantes do Ribeiro e Castro (Zezinho), da Zezinha, do Marques Mendes e doutros que tais.

Proponho, assim, que a direita saiba de cor e repita sempre que necessário, as seguintes palavras:

"Creio num só Paulo Portas, senhor do PP e do que mais conseguir. Pai da Pátria e democrata convicto, consubstancial à direita. E creio num Telmo Correia e em mais uma série de pessoas, nomeadamente num célebre beirão acusado de dar um ou dois calduços numa senhora que dirigia os trabalhos. E abjuro por serem traidores confessos e mentirosos relapsos a Zezinha e o Zezinho, o Lusinho e o Marcelinho e até, talvez, o Cavaquinho que apenas querem prejudicar o nosso querido líder."

Além deste pequeno texto, que desde logo separará os nossos dos outros, creio que alguma liturgia faz falta para que não se repitam cenas como a do passado fim-de-semana no Conselho Nacional. Assim, e desde logo, acho que, quando tu chegas, as pessoas se devem deitar no chão, de barriga para baixo, oferecendo o respectivo lombo para tu lhes pores os pés em cima. Depois, quando tu te sentas, as pessoas serão autorizadas a soerguerem-se devagarinho e a ocuparem os seus lugares sem produzirem qualquer ruído. E assim devem permanecer, totalmente em silêncio, até tu usares da palavra.

Quando entenderes, começarás a falar. De cinco em cinco frases, as pessoas deverão murmurar "muito bem"; sempre que esticares o dedo e utilizares aquele tom de voz vagamente autoritário, as pessoas devem gritar coisas como "Viva a Pátria! Viva Portugal! Viva o glorioso Doutor Paulo Portas que nos conduzirá a todos a um país fantástico, ou pelo menos assaz razoável".

Assim que o discurso chegue a um clímax - e se perceberem (caso não o façam poderás ter um acólito que lhes dá indicações) - as pessoas deverão desfazer-se em aplausos (pelo menos sete minutos). No fim do discurso, quatro fiéis, previamente escolhidos, devem desmaiar, enquanto seis, também pré-determinados, devem transportar-te em ombros.

Como é evidente, será totalmente proibido perderes qualquer votação, ou acontecer qualquer imprevisto que não satisfaça a tua vontade. Os teus apoiantes, tipo Hélder Amaral, podem até bater em quem lhes apetecer, desde que não se saiba.

Estas medidas, do meu ponto de vista, entram imediatamente em vigor, em todo o território nacional.

Comendador Marques de Correia