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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Festival declarativo, ou da necessidade de aproveitar quem diga coisas, coisas, coisas...

Onde o nosso Comendador explica a utilidade de certas pessoas que, por serem detentoras de um elevado potencial declarativo, jamais poderão ser desperdiçadas, ainda que falhem sucessivamente.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Sejamos claros: haverá necessidade de pessoas que digam coisas? Claramente há! Por exemplo, se acontece um pequeno acidente, se há uma pequena intriga política, se o Governo tomou uma medida ligeiramente incongruente, ou se o Presidente se recusou a estar num funeral é preciso haver quem diga, quem comente, quem opine e - sobretudo - quem explique as causas do acidente, quem defina a razão da intriga, quem aponte o que o Governo deveria ter feito e quem condene o Presidente por estar ausente.

Essas pessoas, que têm o género declarativo, dividem-se em três subespécies que passo a caracterizar, depois de anos de aturados estudos.

A primeira espécie é a mirónica. No geral, esta categoria não necessita de ter qualquer habilitação para fazer declarações. Apenas necessita de ter visto o acontecimento. É muito usada em pequenos acidentes e, no geral, começa as frases por "é assim", embora esteja sempre a falar do passado, pelo que deveria dizer "foi assim". Eis um exemplo simples: "É assim, vinha o camião carregado até cimo, e depois houve uma roda que se esbarregou da estrada, começou a chiar ali (e aponta) junto à ladeira e ouviu-se um estrondo." Quando o repórter lhe pergunta: "E depois?", no geral o mirónico responde: "É assim, depois, quando olhei outra vez, o camião já lá estava em baixo, todo virado do avesso com um homem a deitar sangue e a gritar por socorro."

A segunda espécie é a alucinogénica. Caracteriza-se pela experiência e, ao contrário da mirónica, não precisa de ter assistido aos acontecimentos. A classe alucinogénica vê sempre o que os outros não veem. É o caso de António Costa com o Governo do PS ou de Pacheco Pereira com Manuela Ferreira Leite. Os mais profícuos, no entanto, são os que comentam os próprios clubes de que são sócios (tipo Dias Ferreira, Fernando Seara ou Manuel Serrão). Os alucinogénicos têm visões. Um exemplo: as pessoas normais veem a bola no ar e um defesa a esticar o braço e a afastá-la com a mão. Mas o alucinogénico comenta da seguinte forma: "Repare!" (esta é a palavra de arranque favorita desta subespécie). "Foi com o peito!" Curiosamente, quanto mais alucinados, mais audiência e popularidade têm.

A terceira subespécie é a sapiencial. Distingue-se das outras precisamente porque fundamenta os seus conhecimentos num enorme acervo cultural e experimental que nem sempre tem. No geral, essas pessoas intitulam-se Professores e, percebendo ou não do assunto em questão, retiram conclusões definitivas sobre o que se passa. Os casos mais conhecidos são os do Prof. Marcelo e do Prof. Queiroz, os quais por sua vez se dividem em duas subsubespécies. A primeira (Prof. Marcelo), fez, falhou e não volta a fazer - só comenta. A segunda (Prof. Queiroz) fez, falhou, volta a fazer e, ainda por cima, comenta. No geral, esta subespécie começa as frases com "eu diria", como se apenas o dissesse noutras circunstâncias, mas esteja a fazer o favor de nos dizer nas circunstâncias do momento. Um exemplo: "Eu diria que jogámos para um resultado semelhante àquele que obtivemos." Não quer dizer nada, mas fica bem a um Prof.

E pronto; num mundo que é um festival declarativo, alguém tinha de fazer a taxinomia dos declaradores. Fui eu (que sou um sapiencial mirónico).

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 26 de Junho de 2010