Siga-nos

Perfil

Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Exemplos a seguir na reciprocidade

JOÃO CARLOS SANTOS

Lisboa, 12 de Março de 2006

Exmo. Senhor Presidente de Angola

Meu caro Zé Eduardo,

Soube que o teu Governo - e bem - eivado do mais alto sentido da reciprocidade, decidiu não aceitar como válidas as cartas de condução portuguesas. Motivo? Os portugueses multaram o Mantorras - exemplo e estandarte maior do poder de Luanda (é muito bom, mas não funciona) - que conduzia com uma carta angolana caducada. O facto de estar caducada foi devidamente obnubilado e, doravante, nem um tuga pode conduzir nas magníficas auto-estradas, seja das Lundas, seja do Planalto Central, se não obtiver uma carta angolana ou coisa assim.

Acho bem! Não queremos cartas angolanas, vocês não querem cartas portuguesas!

Mas outros aspectos da vida existem que tu, caro Zé Eduardo, podias também reciprocar - peço desculpa, mas é assim que se diz. Por exemplo: a limitação de mandatos do Presidente da República. Sabias que nós não admitimos que ninguém - nem mesmo o Mantorras - seja Presidente por mais de 10 anos? E que, ainda por cima, qualquer um que chegue a Presidente tem de ser eleito e que, para ser eleito, tem de ter mais votos?

Aposto que, agora que sabes, não vais deixar de decretar o mesmo. Já te estou a ver: Ai eles têm eleições? Pimba! Nós também vamos ter! Ai eles têm limitações de mandatos! Pumba! Nós também! Ai eles têm votos e tudo, e pode votar quem quiser? Toma! Aqui vai ser na mesma!

E mais, se começas nesta senda de imitar tudo, lembra-te, por exemplo, dos autarcas. É que também são eleitos. E o Governo, que é designado por um Parlamento eleito de quatro em quatro anos e não de 300 em 300 anos, como aí. Quer dizer, o Governo, porque o Presidente é de 500 em 500 anos, salvo erro.

E há mais para copiares. Por exemplo, aqui os tribunais podem acusar e julgar amigos do primeiro-ministro ou do Presidente da República. Ou mesmo o primeiro-ministro e o Presidente. São órgãos de soberania independentes, não carecem de ser formados pelos amigos do Presidente.

E outras coisas. Por exemplo, em Portugal, os grandes empresários não são familiares do Presidente da República. Por exemplo, o prof. Cavaco Silva tem uma filha mas ela não é uma grande empresária, nem das pessoas mais ricas do país. É uma pessoa discreta e igual às outras, com os mesmos direitos e deveres. Eis outra coisa boa para aplicares a tua reciprocidade.

E mais ideias me ocorrem sobre matéria tão vasta como interessante. Como por exemplo aquela ideia de prender uma britânica em Cabinda, por espionagem. Não estás a ver-nos prender uma britânica nos Açores por espionagem, pois não? Claro que não! E pronto, já vês. Há um longo caminho recíproco a fazer. Não é só nas cartas de condução.

Viva Angola! Viva o Mantorras e viva a reciprocidade! E manda-te um abraço o teu recíproco

Comendador Marques de Correia