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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Encontro de um cantor progressista com o líder carismático de um país europeu.

Onde o nosso Comendador, pedindo desculpa por ter dito que "Os Lusíadas" terminam com a palavra 'vaidade', quando é 'inveja', deixa de armar-se em intelectual e conta uma história real.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Pela segunda vez na vida tive um desmentido. E ambas foram de ilustres figuras da nossa história. A primeira, cujo conteúdo não recordo devido à minha adiantada idade, foi do general Kaúlza de Arriaga; a segunda foi na semana passada e proveio do vate Luís de Camões. Disse este - e bem - que eu sou "estúpido". Isto porque escrevi que a última palavra de "Os Lusíadas" era 'vaidade' quando toda a gente sabe "incluindo Vexa que é inveja, como aliás referia sete linhas abaixo".

Posto o desmentido, vamos ao tema da semana. Também pelo facto de estar esmagado intelectualmente, não contarei uma história de moral elevada, mas uma que testemunhei pessoalmente e que não envolve qualquer esforço intelectual ou risco de citações erradas.

Havia um cantor progressista, de intervenção, resistente a várias ditaduras, mas cuja música de pendor popular se espalhou por todos os continentes e culturas. O cantor, celebrizado por canções como 'O Malandro', 'O Regresso do Malandro', ou ainda 'A Malandragem' e 'A Visita do Malandro Foi Ele Quem a Pediu', tem uma audiência, totalmente, global. Só para dar exemplo, esta última canção, um samba de enredo, tem estribilho que é cantado de Tóquio a Nova Iorque, de Sydney a Londres e por aí fora. É assim: "A visita do malandro/ Foi ele quem a pediu/ Entrou lá na minha casa/ Dois minutos e saiu/ O que ele foi lá fazer/ Deixou-me num desatino/ Só depois fiquei sabendo/ Que ele era malandro fino/ Deu notícia em TV/ Daquele encontro sinistro/ Que um malandro modernaço/ É um malandro-ministro."

Ora este grande artista foi um dia incomodado porque um líder europeu fazia questão de se encontrar com ele. E ele não queria, porque "Tinha gim tónico para tomar/ Um pôr-do-sol para ver/ Garota para namorar/ Uma mulher para beijar/ E ainda mais que fazer." Mas o presidente do país do cantor insistiu, que era importante para as relações internacionais e para uma companhia de celulares, em particular, que o cantor recebesse aquele político. E o cantor disse: "Tá bem, mas tu fica devendo uma."

O líder apareceu no apartamento do cantor, esteve lá um pedaço de tempo, riu, cantou, foi simpático, pediu autógrafo e depois saiu. O grande cantor abriu então a televisão e ficou sabendo que fora ele mesmo a pedir o encontro com o líder. Admirado, pegou numa caixa de fósforos e batucou: "Se o senhor não está lembrado/ Licença para contar/ A visita que me fez/ Num fui eu que a fui rogar/ Eu tinha mais que fazer/ Tinha melhor gozação/ Que ter um soba metido/ Aqui no meu barracão." Quando estava em pleno processo criativo, um jornal do país do líder perguntou-lhe: "Seu cantor, foi você que convidou o nosso chefe?" E ele, assim apanhado, respondeu: "Virge Maria! Eu? Eu não! Foi ele quem quis vir."

E então a imprensa, jornal e TV incluídas, deram a versão do cantor. E ele acabou o samba que estava fazendo da seguinte forma: "Aqui no meu barracão/ Só entram moças à beça/ Eu num convido político/ A menos que ele me peça." No dia seguinte foi correndo ao local onde costumava gravar os sambas e gravou este. Quando lhe perguntaram o nome da canção, ele não sabia e disse que podia ser o nome daquele jogador famoso do Corinthians que lhe tinha dado muitas alegrias em jovem. Mas o manager disse:

- Num tem a ver. Arranja outro.

O cantor ficou de pensar.

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 5 de Junho de 2010