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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

E como dizia o outro, quando ninguém o entendia, o ó que som tem, ora de ó ora de u

Onde o nosso Comendador explica que um miserável erro de impressão levou a que o programa do PS nas últimas eleições fosse mal entendido pelos eleitores. Na realidade, estava lá o aumento do IVA.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Há casos em que uma coisa parece não ter a ver com outra. Este é um deles. Mas, por muito estranho que pareça, este é real. Vejamos do que falo.

Muitos eleitores queixam-se agora de que o Governo não está a cumprir o programa sufragado nas eleições, nem sequer o programa do actual líder do PSD, mas sim o programa da senhora que foi derrotada nas legislativas e afastada do PSD, a drª Manuela Ferreira Leite.

Na verdade, quem dizia que o país estava de pantanas e a necessitar de um grande corte nas obras públicas, mormente na ponte e nas auto-estradas, era a drª Manuela. Mas ninguém concordou com ela.

Agora, todos dizem que não é altura de lançar novos projectos. Diz o senhor que é secretário de Estado das Obras Públicas, concorda o senhor ministro das ditas, subscreve o dito o senhor ministro das Finanças e concorda, por fim, o senhor primeiro-ministro.

Põe-se, portanto, a questão. Se eles acham isto, porque prometeram o contrário?

Por serem mentirosos? Não!

Por estarem em negação, como dizia o senhor do FMI? Nunca!

Devido a um mal-entendido fonético-ortográfico nas palavras utilizadas na campanha? Certo!

A verdade, meus caros leitores, é que o português, como já muitas vezes foi glosado, é uma língua muito traiçoeira. Nomeadamente a fonética portuguesa é complicada. Como dizia Armando Ferreira num dos seus imortais best-sellers, não sei se no "Baile dos Bastinhos" ou em "O Galã de Alcântara" (eu sei que não esperavam por tamanha erudição), "o ó que som tem, ora de ó ora de u" (passando-se a cena num teatro de ópera onde o resto do diálogo tinha a inesquecível frase "há cá eco aqui, há cá eco, há"). Ora, o que se passou foi que Sócrates ditou o programa do Governo com todas as previsões da terrível crise provocada pelo ataque dos especuladores. Ele sabia que o euro ia ficar sob pressão e que isso tornaria insustentável o grandioso e necessário programa de obras públicas e de endividamento externo. Por isso, todo o seu cuidado foi em dois sentidos: suspender as obras e impedir o aumento da despesa e da dívida.

Infelizmente, a secretária responsável por passar a gravação a escrito ouviu a gravação de trás para a frente. Como toda a gente superdotada (e isso pode ver-se com os principais autores do mundo), também o que Sócrates diz faz sentido independentemente de se ouvir de trás para diante ou de diante para trás. E, assim, o programa ficou irremediavelmente do avesso.

Claro que Sócrates poderia ter denunciado o erro da secretária, mas ele é socialista e incapaz de pôr em causa um posto de trabalho, sobretudo quando o erro é involuntário. De tal forma que, cavalheirescamente, decidiu arcar, solitariamente, com as culpas e ser, agora, injustamente acusado de ter omitido dados e factos essenciais nos seus discursos de campanha e pós-campanha.

Eu sei que aqueles que não gostam do primeiro-ministro não vão acreditar nesta história. Vão dizer que ele escondeu, mentiu... Vão dizer que esta história não tem pés nem cabeça.

Mas eu, em defesa do chefe do Governo, digo: esta história é tão credível como aquela que o PS vai usar para explicar como raio os socialistas adoptaram o programa de Manuela Ferreira Leite.

Que cada um escolha a que prefere...

Texto publicado na edição da Única de 22 de Maio de 2010