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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Como um país insustentável e em situação difícil contrasta com o nosso querido país

Onde o nosso Comendador ressalta a diferença que há entre aqueles países insustentáveis da Europa e os países organizados, como o nosso, onde todas as possibilidades estão previstas... mesmo as piores.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Cavaco Silva, Presidente de um pequeno Estado europeu que mal conheço, afirmou que o seu país está "numa situação insustentável". Por outro lado, José Sócrates, líder de uma pequena nação europeia que não sei bem onde fica, declarou que o seu país estava numa "situação difícil". Ficamos a saber que, na Europa, há um país insustentável e um país em situação difícil. Ou seja, dois países onde é provável que o povo sofra desmesuradamente (não o digo com certeza por desconhecimento da situação real). E nesse drama hão-de ter culpas tanto o tal senhor Cavaco Silva como o tal senhor José Sócrates, respectivamente líderes do "insustentável" e do "situação difícil" - chamemos-lhes assim para não ter de escrever nomes esquisitos, que para isso já chega a Quirguízia (ou será Quirguistão? Ou Kyrgyzia? Vá-se lá saber...).

Em Portugal, nação valente e imortal onde a situação nem é "insustentável" nem "difícil", o rigor impera, como se sabe. Bem liderados politicamente por um prudente Chefe do Estado e por um extremoso chefe do Governo, damos cartas ao mundo. Por um lado, já saímos da crise, porque crescemos para aí 1 por cento. Por outro lado, somos líderes num sector onde se joga, de facto, o futuro das nações: a Educação.

Na Educação, o nosso lema é andar para a frente. E vamos muito à frente! Depois de conseguirmos que os alunos fossem responsáveis pelas escolas (em certos casos, com a ajuda dos pais, que também a frequentam para dar uns tabefes nos professores que não sabem dar notas), depois de abolirmos - por serem totalmente desnecessários - a maioria dos exames, que só geravam despesa orçamental, uma vez que a sua correcção tinha de ser paga, depois de proibirmos a retenção (vulgo chumbo), porque os nossos estudantes sabem o suficiente para passarem de ano - o que se prova pelo facto de nenhum ficar retido -, conseguimos outro feito absolutamente notável: os estudantes que tiverem aproveitamento no 8º ano passam para o 9º, mas os que não tiverem passam para o 10º. A ideia subjacente a esta medida é fascinante, não só porque liberta o aluno da pressão do sucesso como transforma em sucesso o que o aluno julgava ser um insucesso. Deste modo, aquele estudante que quer ser problemático ou mau aluno não tem hipóteses; quanto pior for, mais avança. Esta ideia tem aplicações óbvias na Economia e na Gestão, algumas das quais não foram ainda desenvolvidas, mas que, sendo óbvias, me dispenso de escalpelizar. Direi apenas uma ou duas: imaginem se os Estados tivessem como recompensa de se endividarem o facto de receberem ainda muito mais dinheiro. O que aconteceria? Ninguém se endividava, porque a quantidade de dinheiro recebida seria superior à capacidade de endividamento! Percebem agora o alcance? Imaginem que as empresas promoviam apenas os trabalhadores incompetentes. O que se passaria? O conceito de incompetência desapareceria, porque os incompetentes dirigiriam as empresas (há locais, nomeadamente em empresas públicas e partidos políticos, onde penso que esta via já vai sendo adoptada).

São medidas assim que tornam o nosso país altamente sustentável e bem sucedido, ao contrário daqueles países que citei inicialmente. É um país de plenas possibilidades, onde todos os casos estão previstos. A nós nada nos abala, não há crise que nos faça mudar o rumo. Vamos continuar como sempre: prà frente, Portugal!

Outra hipótese é fugirmos!

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 19 de Junho de 2010