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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Como Saramago derrubou o muro de Caim em vez de derrubar o muro de Berlim

Onde o nosso Comendador, recorrendo aos seus inúmeros estudos bíblicos e conhecimentos histórico-religiosos, faz a difícil escolha entre o deus do Nobel e o Deus dos homens.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Deus é velho e Saramago também! De resto pouco mais têm em comum. Deus é gordo (disse o defunto de Dona Flor e contou-o Jorge Amado, que apesar de não ter Nobel sabia do que falava) e Saramago é magro. Deus é bem disposto, é alegre e canta; Saramago tem cara de poucos amigos, não é alegre e escreve. Deus aparecia, mas deixou de aparecer.

Saramago passou a aparecer muito mais, ultimamente. Deus ama todos os homens e mulheres por igual. Saramago só ama alguns de esquerda e odeia toda a direita.

Acima de tudo, Deus perdoa e Saramago não.

Manda a verdade dizer que, em contrapartida, nós perdoamos quase tudo a Deus e quase nada a Saramago.

O que fez Deus a Saramago para que este dissesse mal Dele? Nada! Absolutamente nada. Quem ouve a palavra de Deus (para os ateus e aparentados, informo que a palavra de Deus pode ser ouvida num templo perto de si) sabe que Ele nunca disse mal de Saramago. É verdade que o Evangelho de Jesus Cristo nunca foi, por pura discriminação - já se vê - incluído na Bíblia. Mas é certo que lhe falta o génio e a inspiração que São João pôs no seu Evangelho, que é do meu ponto de vista o melhor.

Ora bem, Saramago tentou destruir a história de Caim. Alguém devia ter dito a Saramago que Caim não existiu. É como a Blimunda, a mulher cega que vê muito no livro "Memorial do Convento". É uma personagem!

Por isso, caro Saramago, a história de Caim e de Abel, da marca na testa, das sete vezes que são castigados os que fizerem mal a Caim mesmo depois de ele matar Abel e tudo isso que está na Bíblia, é metafórico.

Pronto, posto assim é mais simples compreender. Aliás, se Deus se irritasse por Caim ser agricultor e lhe dar sementes e o desprezasse por isso, imagino como ele trataria um certo escritor cujo nome não digo, mas não é Lobo Antunes, embora este, caso Deus fosse muito vingativo, também estivesse perdido...

O muro que existe entre Caim e Abel simboliza a disputa de irmãos pela primazia, pelo amor do Pai. É o amor de Deus que ambos tentam conquistar. E já que Saramago está tão interessado em irmãos, podia ir meter-se com Jacob, depois de ele lutar com um anjo (ou com o próprio Deus?), chamou-se Israel e foi o pai das 12 tribos. Esse menino nasceu agarrado ao calcanhar de Esaú, o seu gémeo e primogénito, e faz-se passar pelo irmão para herdar as coisas do pai, Abraão... Grande história, mas é capaz de ser como a do Caim, é capaz de ser mentira.

O muro a derrubar, não seria pois o que foi hábil e simbolicamente construído entre Caim e Abel, duas personagens que a terem existido não se chamavam assim, não eram filhos de Adão e Eva, não viveram naquela época e nenhuma matou a outra. O muro a derrubar, podia ser aquele que foi dramaticamente levantado entre os irmãos berlinenses e que foi destruído à marretada, há exactamente 20 anos! Esse é que era!

Porque um muro é irreal, entre figuras toscamente construídas no fundo dos tempos, para nos fazer pensar. Como se diz agora no fim dos filmes, nem pessoas nem animais foram maltratados na realidade da história de Caim e Abel. Mas o mesmo não se pode ir dizer aos mortos no muro de Berlim.

Enfim, foi um pequeno falhanço, estou certo, caro deus do Nobel, que se desta vez optei pelo Deus dos homens, noutras ocasiões por-me-ei ao lado da Blimunda (que, aliás, parece que não existe, que aquilo é mentira do autor, o que me leva a desconfiar da existência do autor. Percebeste a indirecta?).

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009