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Expresso

Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Coisas que não devemos fazer porque temos de poupar

Lisboa, 12 de Maio de 2008

Minha caríssima Maria de Lurdes

Quando, na semana passada, te ouvi dizer que - e cito - "Se o Estado gasta por ano três mil euros com um aluno, quando ele repete vai custar seis mil no ano seguinte", fiquei siderado. Fez-se luz e compreendi tudo!

Há coisas em que temos de poupar e uma delas é no chumbo!

Até ler aquelas tuas avisadas palavras pensava eu, já se vê que erradamente, ser o chumbo, a raposa, a retenção (como agora se diz) uma retaliação à ignorância do aluno. Ou seja, o aluno não cumpria o seu dever de estudar e de saber - já não digo os rios de Moçambique, como no meu tempo, mas ao menos que o Mondego desagua na Figueira da Foz, o Douro no Porto e o Lima em Viana - e reprovava, ficando a marcar passo no mesmo ano e arriscando-se a castigo severo do pai.

Hoje em dia compreendo que o chumbo é, sobretudo, uma despesa. O aluno que não sabe sai mais caro, sai ao dobro do preço. É por isso, compreendo agora eu, que o aluno que não há meio de saber - já não digo a fórmula química do ácido sulfúrico, velho H2SO4, a fórmula dos cábulas, mas ao menos que água é composta por duas moléculas de hidrogénio e uma de oxigénio -, não chumba nem reprova, mas como retaliação passa de ano, vai chatear outro e sai muito mais barato.

Claro que estas contas, apesar de um pouco economicistas demais, têm toda a razão de ser. E é pena que estas tuas amplas perspectivas não se alarguem a outros horizontes políticos. Por exemplo, à saúde.

Haverá algo mais caro do que uma pessoa estar doente? Sobretudo se a doença for crónica? Claro que não! Como se combaterá, pois, a despesa acrescida que a doença provoca? A resposta só pode ser uma - igual à dos estudantes cábulas que passam de ano - fingindo que não há doentes, como fingimos que não há maus alunos. E isso, minha cara, é mais um problema resolvido.

E o mesmo nos nascimentos. São caríssimos, caramba! Ele é o subsídio, a baixa, o hospital, por vezes a cesariana e em quantas ocasiões a depressão pós-parto! O melhor é estar quieto. O Governo devia arranjar legislação contra o nascimento!

É certo que a morte também tem os seus custos, mas tem como contrapartida a cessação imediata da reforma e dos custos adicionais de saúde que os idosos trazem ao sistema (e por falar disso, os idosos são outro grupo com o qual há que ter cuidado, embora a política de fingir que a doença não existe resolva, na maior parte dos casos, o problema dos idosos). Mas o nascimento não, é um ror de anos de abono de família, seguidos de um ror de fundo de desemprego, é gasto sobre gasto.

E depois há a Justiça, mais um sector onde se gasta imenso. Se não houver crimes não há julgamentos, sem julgamentos não há prisões e sem prisões diminui-se brutalmente a despesa.

Por amor de Deus, como é que ninguém se lembrou disto? O dinheiro que andamos a desperdiçar só porque nos permitimos liberalidades como o chumbo nas escolas, a doença nos hospitais, o nascimento nas maternidades ou a Justiça nos tribunais.

É um desperdício.

E o que é mais - é que eu acho que o povo nem merece!

Mantém-te em forma e com boas ideias e aceita um beijinho do teu querido amigo

Comendador Marques de Correia