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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Agora que ligámos o Poceirão à Europa, resta esperar a ligação do país ao Poceirão

Onde o nosso Comendador revela a jogada de génio que está por detrás desse passe de mágica que é construir uma linha de alta velocidade que vai do Poceirão e chega até Madrid.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

O país comemorou a vitória do Benfica, antes de reentrar na costumeira depressão, mas tinha outra coisa para celebrar: a assinatura do contrato de construção da linha que vai do Poceirão até Madrid.

Alguns espíritos menos esclarecidos podem estar perplexos: para que diabo queremos uma linha de TGV do Poceirão a Madrid? A resposta, porém, é surpreendentemente simples de dar. Nós queremos o TGV para nos ligar à Europa, como sempre disse o senhor engenheiro que é primeiro-ministro. Logo, o que estamos a fazer, com o concurso entusiasmado de todo o país, é ligar a Europa ao Poceirão. Numa segunda fase ligaremos o país ao Poceirão. Simples!

Vejamos o que diz a sempre útil Wikipedia sobre o Poceirão, de modo a ficarmos mais elucidados. Diz assim: "O Poceirão é uma freguesia portuguesa do concelho de Palmela, com 147,07 km de área e 4304 habitantes (2001). Densidade: 29,3 hab/km. É um local de fenómenos meteorológicos extremos. No Poceirão, as temperaturas mínimas são quase sempre mais baixas do que as de Lisboa em cerca de 6º C, sendo que as máximas ultrapassam as de Lisboa em cerca de 5º C, em média".

Aqui têm. Com 4300 habitantes ligados à Europa resta-nos ligar mais 9.995.700. E damos à Europa a vantagem de ficar a conhecer mais um lugar de "fenómenos meteorológicos extremos" onde as temperaturas podem variar entre os 6º C e os 40º C. Não é a Lapónia, nem nada que não haja em Madrid, mas é mais pitoresco.

Depois, quando a linha de alta velocidade entre Madrid e o Poceirão estiver pronta, os madrilenos, embora não podendo, como dizia o ministro Mendonça, vir à praia na Costa da Caparica, sempre podem ficar a conhecer uma freguesia do concelho de Palmela. Acresce, ainda, que no Poceirão, segundo sabemos pela mesma Wikipedia, é muito frequente haver nevoeiro, pelo que se pode teatralizar o regresso de D. Sebastião e cobrar mais uns bilhetes aos espanhóis que avancem pelo Poceirão a dentro, de modo a amortizar o custo da obra, que sempre são 1494 milhões de euros.

Ficamos não com o TGV em E, nem em T, nem em Y, mas em I simples. Sai-se de Madrid, compram-se caramelos em Cáceres e chega-se ao Poceirão. De regresso, parte-se do Poceirão e chega-se a Madrid num instante. Qualquer pessoa que queira ir de Madrid ao Poceirão não deve gastar mais de três horas e pico.

Muita gente está a contar que, mais tarde, quando houver dinheiro, se construirá a ligação Poceirão-Lisboa... Nada mais falso! Nunca haverá dinheiro para isso e aí é que está a beleza deste acto. A linha Madrid-Poceirão não passará dali e será, no futuro, um grande feito, como, por exemplo, o aeroporto internacional de Beja, ou um que era para haver na Figueira da Foz, ou o da Ota, ou o de Alcochete, ou o Porto de Sines, ou outras obras planeadas, em parte executadas ou até totalmente feitas e que não servem para nada.

Mas o Governo é avisado. E sabendo disto vai tentar evitar que o mal volte a acontecer. Por isso, está a planear, e de certa forma a conseguir, mandar o país para o Poceirão. Lentamente, passo a passo, vamos indo para o Poceirão, lá bem para o fundo do Poceirão, para o nevoeiro e para os fenómenos extremos. E, do Poceirão, veremos chegar espanhóis e partir comboios. E assim nos ligaremos à Europa. É uma questão de esperarmos!

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 15 de Maio de 2010