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António Pires Lima

De boas intenções está o inferno cheio

António Pires de Lima (www.expresso.pt)

1 Na política vivemos um tempo de esperas: o voluntarista e descredibilizado primeiro-ministro já não convence nem o PS e, perante uma liderança exaurida, só se antevê uma alternativa real lá para o princípio de 2012. Uma crise política, agora, seria algo que os nossos credores não poderiam tolerar. Enquanto a crise vai castigando Sócrates, as oposições vão capitalizando na indignação e no descontentamento geral.

O novo 'pacote' de austeridade foi, infelizmente, o previsível, constituindo mais uma oportunidade perdida: o aumento de impostos é a receita socialista habitual quando os credores apertam. Os cortes anunciados na despesa são para estrangeiro ver, meras intenções que vão gerar desorçamentações e atrasos nos pagamentos a fornecedores. Compreendendo que o PSD tenha sentido a necessidade de viabilizar o dito pacote, um conselho daria ao provável próximo primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho: não queira exagerar nas cumplicidades com os governantes actuais a troco de umas fotografias em 'pose respeitável'. Corre o sério risco de passar o próximo ano e meio em ziguezagues mirabolantes - acorda aumentos de impostos no gabinete do PM em S. Bento e no Parlamento, a 500 metros de distância, o seu líder parlamentar critica o Governo por aumentar os impostos - e a pedir desculpa aos portugueses. Ninguém na direita deseja que vire um soufflé político; muito apetecível por fora e de conteúdo vazio por dentro. De bem-intencionados está o inferno cheio.

Uma medida de austeridade realmente necessária e perene seria o corte dos salários da função pública. Foi executada na Grécia, em Espanha e na Irlanda. Em Portugal, uma redução de 5% teria sido suficiente para evitar qualquer aumento de impostos. Ficámo-nos pelo corte nos políticos: caiu bem mas não serve para nada.

2 Portugal não é, no entanto, tão mau como o pintam os tremendistas, um modo de vida cada vez mais auspicioso: estão sempre cheios de razão quando a crise chega. Ainda recentemente a COTEC - agência privada com um percurso notável a dinamizar uma cultura empresarial assente na inovação - revelou que o investimento em inovação atingiu 1,5% do PIB, o dobro daquilo que investíamos há oito anos. Estamos ainda longe das melhores práticas mundiais mas já próximos da média europeia e acima da Espanha e da Itália. Nas empresas privadas o investimento triplicou nos últimos anos.

Por essa e por outras razões, as exportações voltaram a crescer a dois dígitos e estão a puxar pela economia, apesar do alto desemprego e baixo consumo interno.

Com o euro tão desvalorizado, o crescimento em Angola e alguma retoma mundial, esta tendência poderá até intensificar-se.

É certo que, com a crise, muitas empresas vegetam ou já morreram. Era inevitável. Muitas outras, porém, ajustaram-se à crise, reestruturaram-se e sobreviveram. Como se tem visto, a economia privada é bem mais flexível e competente do que o pesado universo público. O mundo empresarial, ao contrário do político, não tolera esperas nem vazios.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010