Siga-nos

Perfil

Expresso

António Pires Lima

A grande oportunidade

António Pires de Lima (www.expresso.pt)

Era incontornável, a dívida caiu-nos em cima: nenhum país é sustentável consumindo décadas a fio bem mais do que produz, acumulando uma dívida pública galopante que se aproxima de toda a riqueza que cria num ano e um endividamento privado já superior a 365 dias do rendimento das famílias. Como concluía no último artigo, assim sobrevivemos até os credores nos obrigarem a mudar de vida. Chegou o momento, em estado de absoluta necessidade ou - e prefiro assim - de grande oportunidade.

É finalmente necessário cortar a direito na despesa pública, cancelando ou adiando projectos de investimento não vitais, diminuindo realmente os salários e benefícios dos funcionários públicos, ajustando o subsídio de desemprego para que não funcione como um desincentivo à nova oportunidade de emprego, controlando sem piedade o escândalo dos abusos no rendimento mínimo, adequando ainda mais a idade da reforma à moderna esperança de vida, combatendo o desperdício e a má gestão nos serviços públicos. Tudo isto nos é imposto por quem nos empresta dinheiro para renovarmos o stock da dívida pública acumulada, tudo isto o Governo socialista, suprema ironia, está ou vai ter de fazer nos próximos meses! Não existe margem de manobra. O PM e o ministro das Finanças já perceberam, a oposição responsável também.

Mas mudar de vida é, também, uma grande oportunidade. Uma oportunidade para repensar as funções do Estado, concentrando os serviços públicos onde são, por natureza, insubstituíveis: justiça, segurança e defesa. Talvez com maior foco na gestão destas áreas tenhamos, finalmente, melhor justiça e mais segurança. Já nas áreas sociais - educação e saúde, à cabeça - é preciso distinguir garantia a acesso de prestação de serviços com a prestação propriamente dita. Pretender que o Estado continue a monopolizar a prestação de serviços públicos é uma arrogância ideológica que condiciona a eficiência por evitar a liberdade de escolha e a concorrência. E, como se vê, essa arrogância produziu serviços públicos medíocres e já nem sequer sustentáveis financeiramente.

Esta oportunidade de mudar de vida, reduzir o Estado ao essencial, devolver poder aos cidadãos, valorizar aquilo que só o esforço e o mérito podem justificar, acabar com o "caldo de cultura" que transformou gerações e, talvez, metade dos portugueses numa espécie de indigentes irresponsáveis pelo seu destino individual, não está ao alcance dos socialistas. Vai ao arrepio daquilo que foi a governação, pelo menos, nos últimos 15 anos. Por muito que isso irrite a esquerda, transformar Portugal num país de gente decente e que valha a pena é uma tarefa para a nova direita, a direita que está a aparecer.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Fevereiro de 2010