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Expresso

António Pinto Leite

O dia seguinte

O dia mais importante para o PSD não é o dia 31 de Maio, é o dia 1 de Junho. O dia mais importante é o dia seguinte.

Nenhum futuro líder do PSD poderá governar o PSD se o essencial do PSD não se unir e não se focar no objectivo de fundo: melhorar a acção política, definir um programa de governo que faça a diferença, ganhar eleições e governar o país a partir de 2009.

O dia seguinte depende da qualidade do novo líder. Qualidade moral, autoridade pessoal, força interior, carisma, sentido de serviço.

Cavaco Silva ganhou à tangente, em 1985, ficou em minoria no conselho nacional, mas impôs a sua personalidade e a sua autoridade.

Sá Carneiro viveu em turbulência permanente até ganhar as eleições legislativas de 1979, mas a sua autoridade ultrapassava as incidências dramáticas e dilemáticas daquele tempo. Além do mais, era um senhor, o que não foi irrelevante para atrair vontades.

O próximo líder do PSD vai vencer com margem reduzida e é natural que reste alguma turbulência no dia seguinte. O importante é que quem ganhe saiba desvalorizar as vozes marginais e saiba transformar positivamente a adversidade.

Foi na adversidade que a grande história do PSD foi feita. A tangencialidade interna foi o berço dos grandes compromissos do PSD com o país.

Daí que não me impressione um segundo com o resultado renhido que se avizinha.

Para o dia seguinte ser bem sucedido, confiarei o meu voto de militante a Manuela Ferreira Leite.

Não voto contra Pedro Santana Lopes - a quem me une uma amizade de longos anos e tem obra feita nos últimos vinte anos - ou Pedro Passos Coelho, cujo talento aprecio. Se um deles ganhar, não alinharei, certamente, em qualquer coro incomodado. Verei como ajudar.

Manuela Ferreira Leite inspira-me confiança. Traz uma riqueza rara para a política e até para a acção empresarial onde estou: podemos e devemos levar a sério cada palavra e cada número de cada promessa que fizer. É o paradigma da previsibilidade. Depois de Cavaco Silva, não aparecera ninguém como ela.

Um político assim pode não ser novo, mas é diferente. Nem sequer é inovador, é alternativo.

O modo como Manuela Ferreira Leite actua politicamente é alternativo relativamente à forma como se faz política usualmente.

Acredito que o país vai apreciar mais os arrepios das suas verdades do que a sonolência dos usuais "sound bites".

Portugal tem um problema: para chegar a um novo paradigma de justiça social tem que seguir um reformismo de matriz liberal, desde logo na reforma do Estado.

Como já escrevi, Sócrates percebe isto mas ficará a meio da ponte.

Cabe ao futuro líder impor-se, seja qual for o grau de adversidade que encontre no dia seguinte à vitória.

Confio muito que Manuela Ferreira Leite, se for ela, saberá fazer isso como nenhum outro. E que saberá liderar uma equipa com sentido de Estado, criativa e pragmática, sem medo e incorruptível, capaz de nos tirar do meio da ponte onde Sócrates nos vai deixar.