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António Pinto Leite

Bento XVI e o nosso dilema

António Pinto Leite (www.expresso.pt)

O dilema central da fé não é o preservativo, o aborto, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, se a Igreja é conservadora ou se os padres falam bem. O dilema central da fé cristã é cada um de nós, resumido a duas palavras: eternidade e salvação. Ter fé significa acreditar numa vida após esta - promessa de Cristo - e ser cristão significa acreditar que essa vida depois da morte pode ser o céu ou pode ser um inferno, pode ser uma alegria ou um suplício, tudo dependendo de termos conduzido a nossa vida na Terra segundo a doutrina do Evangelho ou não.

A nossa fé não prova que Deus existe, assim como a negação humana de Deus não prova que Deus não existe. O mistério permanece enorme nas nossas vidas, com consequências intensas na nossa vida terrena e eventuais consequências dramáticas na vida eterna que nos está reservada. A fé coloca este dilema e oferece esta esperança. Neste mistério estamos entregues à nossa liberdade e às suas consequências.

A mensagem nuclear de Bento XVI aos portugueses procurou, metodicamente, focar no essencial um povo que se diz católico.

Ainda no avião, analisando a questão da pedofilia, confrontou a Igreja com a sua própria salvação: "A novidade que podemos descobrir hoje reside no facto que os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja". A declaração tem efeito político, mas o que é importante é que se aplica à vida de todo o crente: os ataques à nossa salvação vêm do interior de nós mesmos.

Quando pisou o aeroporto de Lisboa, foi à raiz do dilema humano: "A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na sua esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética". E, em Fátima, num passo sublime sobre a natureza do Homem: "Deus tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não sensível, o não visível aos sentidos".

No seu encontro com os sacerdotes foi incisivo sobre a missão da Igreja na salvação dos homens: "Somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências". E ainda mais nítido: "Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse Além, sem se importar com a própria salvação eterna. Os homens são chamados a aderir ao conhecimento e ao amor de Deus, e a Igreja tem a missão de os ajudar nesta vocação".

Lendo o Evangelho, a fé é isto. A Igreja é isto, é esta a sua liberdade e a sua solidão diante dos tempos. Cada um de nós é isto, este dilema e esta esperança diante deste mistério.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010