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António José Seguro

Responder, com o olhar no horizonte

António José Seguro (www.expresso.pt)

Os cortes recentes do nível de rating da dívida portuguesa trouxeram ao primeiro plano do debate nacional a economia real (pessoas e empresas) e as debilidades estruturais de Portugal.

O fraco crescimento económico - da última década e o previsto para os próximos anos - confirma que os problemas não surgiram com a crise internacional, e muito menos desaparecerão com o fim desta. As estimativas relativas ao crescimento potencial do nosso país não ultrapassam o 1% da riqueza nacional anual.

Considero, por isso, uma enorme irresponsabilidade confundir o nosso principal problema (fraco crescimento económico) com os recentes ataques que os especuladores estão a dirigir contra Portugal.

Estes ataques são para levar a sério e necessitam de uma resposta pronta e enérgica. Desejavelmente através de um plano, concreto e eficaz, resultante de um consenso gerado, no mínimo, entre os responsáveis políticos, empresariais e sindicais, e eficazmente transmitido à sociedade e aos mercados. Um plano que responda ao ataque dos predadores do mercado, mas que seja coerente com uma estratégia de promoção do crescimento económico de Portugal. Um plano que responda a uma emergência presente, mas obedeça a uma visão de futuro.

Um plano que distribua os sacrifícios de modo proporcional aos rendimentos dos portugueses, com a consciência de que muitos dos nossos concidadãos já não têm mais furos para apertar no respectivo cinto. Um plano que tenha uma profunda dimensão ética e adopte medidas concretas no combate às desigualdades salariais e à distribuição dos rendimentos, particularmente nas empresas com capitais públicos. Os exemplos têm de vir da parte de quem se prepara para pedir mais sacrifícios. Não pode haver lugar a decisões com sinais contrários. Os portugueses não compreenderiam que neste momento difícil da nossa vida colectiva houvesse lugar a benefícios ou a privilégios.

Mas não é só Portugal quem necessita de responder a estes ataques. Ataques que, primeiro à Grécia, agora a Portugal e a seguir a outro Estado-membro, visam, também, a zona euro e a União Europeia. A lentidão, o egoísmo e a debilidade da resposta, por parte da UE, à situação da Grécia são muito preocupantes. Stiglitz, numa interessante entrevista ao "El País", põe o dedo na ferida sobre a falta de solidariedade europeia e chama a atenção para o paradoxo de se ter dado aos bancos "um cheque em branco para os salvar" e de agora se pôr à disposição da Grécia ajuda financeira "a um custo excessivo". E concluiu: "Não se pode ganhar dinheiro à custa da família, como parece querer fazer a Europa". E a União Europeia o que responde?

Esta não é a altura para clivagens institucionais ou partidárias. Nem para apurar a repartição de responsabilidade. Haverá outros momentos. Esta é a hora para uma séria convergência nacional num propósito concreto: defender o nosso país. É preciso reunir esforços. A reunião entre o primeiro-ministro e o líder do PSD foi um primeiro passo muito positivo.

Este é um momento muito difícil, como já tivemos outros na nossa história. Vamos, decerto, ultrapassá-lo. Mas não é indiferente, para o nosso futuro, o modo como o fizermos. Devemos ser humildes e aprender com as lições da recente crise e com os nossos próprios erros. Há que arrepiar caminho, com novas mentalidades e tendo presente que a nossa prioridade é o crescimento económico.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010