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António José Seguro

O emprego dos jovens

António José Seguro (www.expresso.pt)

Três anos de educação pré-escolar. Nove anos de educação básica obrigatória. Mais três de ensino secundário. Uma licenciatura e, cada vez mais, um mestrado. No final, de diploma na mão, o que esperam os nossos jovens?

A democratização do acesso à educação em Portugal e o progressivo alargamento da escolaridade obrigatória permitiram que milhares de jovens portugueses frequentassem a escola. Em 2008, 54,3% dos jovens entre 20 e 24 anos tinham o ensino secundário completo (30% no início dos anos 90).

Nos anos 80, a escassez de trabalhadores qualificados em Portugal proporcionava, naturalmente, salários melhores a quem tinha uma licenciatura, fenómeno que se diluiu à medida que cada vez mais jovens ingressavam no mercado de trabalho com níveis habilitacionais superiores. Ainda assim, e conforme refere o Boletim Económico da Primavera do Banco de Portugal, "o mercado de trabalho remunera ainda atractivamente o investimento em educação superior". De facto, o salário mensal de um licenciado em Portugal era de €1625 em 2006, face a um salário médio de €805.

Com as recentes crises, o desemprego dos jovens aumentou bastante - em Portugal e na União Europeia - chegando, em ambos os casos, aos 20%. Os jovens licenciados não escapam a esta tendência internacional. Portugal atingiu, em 2008, um pico de desemprego de jovens licenciados, reduzindo fortemente essa incidência no ano passado, embora estando a 11,4 pontos percentuais acima da média da UE a 27.

Os jovens, e as suas famílias, vivem tempos muito difíceis. O caminho é o investimento na educação de qualidade. Os estudos demonstram que existe uma relação positiva entre o nível de instrução superior (comparando com os níveis inferiores) e o acesso ao mercado de trabalho, bem como com o montante do salário auferido.

Um relatório recente da OCDE, sobre o impacto económico de longo prazo do investimento em educação, aponta para o facto de ser sobretudo a qualidade da educação, e não o número de anos de escolaridade, que faz a 'diferença', gerando maior desenvolvimento. É na qualidade da educação que devemos concentrar os nossos recursos, públicos e privados.

O estudo do Banco de Portugal e os relatórios comparativos da OCDE não deixam margem para dúvidas: é crucial definir políticas educativas integradas e estruturalmente ajustadas às necessidades do mercado de trabalho, promover a aprendizagem ao longo da vida, incentivar estágios profissionais, formar em contexto de trabalho (em articulação com entidades empregadoras e sindicais), não minorando a componente fiscal das políticas públicas, isto é, discriminando positivamente quem investe em níveis superiores de educação.

Os jovens sabem que hoje, ao contrário de ontem, ter uma licenciatura não garante automaticamente um bom emprego. Nem sequer um emprego imediato. Vivemos tempos de incerteza. O discurso do facilitismo é uma ilusão. A resposta está na qualificação, na exigência, na competência, no profissionalismo e na inovação. O caminho é apostar na inteligência dos portugueses e na dos seus jovens. Da forma como se integrarem (social, económica e politicamente) as novas gerações depende o futuro de Portugal.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010