Siga-nos

Perfil

Expresso

António de Almeida

Reformados activos

António de Almeida (www.expresso.pt)

Em períodos de crise, sobretudo quando o povo já se apercebeu da sua gravidade, todos têm de participar. Os decisores políticos têm uma dificuldade acrescida. À óbvia necessidade de medidas impopulares, muitas impostas do exterior, não podem deixar de deitar contas a votos. Dado o elevado número de votantes que depende do Estado, a situação é complexa para todos os partidos. Esses dependentes pesam de forma decisiva na manutenção ou conquista do poder. Daí a discussão política ser pobre em visão, em objectivos de longo prazo e em estratégia. Em contrapartida, vive inundada de táctica e do aparecimento nos telejornais.

Na táctica política, os reformados têm sempre papel importante. A caça ao seu voto é usada e abusada por todos. A questão é apresentada em termos materiais, de justiça, de moralização. Mas lá no fundo, a contabilidade dos votos pesa muito. Com uma lágrima no olho esquerdo, acarinham-se os milhares de pensionistas com pensões baixas. Com o olho direito justiceiro, cascam nas centenas com pensões altas. Não me recordo de ter visto políticos discutirem a forma como tanto português foi atirado para a pré-reforma em nome da racionalização de efectivos. Para o abandono profissional. Para a depressão. Para a inutilidade de tudo que aprendeu. Chama-se desperdício de capital humano.

A guerra psicológica de meter um quadro qualificado num gabinete, nada lhe dar para fazer, oferecer-lhe um café ao meio da manhã e demonstrar-lhe que não passa de um inútil, destrói qualquer homem. Para muitos quadros, a questão não é a passagem à reforma. É verem aproveitados os conhecimentos e a experiência ganhos durante uma vida profissional. É verdade que há muita gente que sonha com a reforma para dormir mais durante a manhã. Para ver telenovelas. Para ir a um centro comercial ler os jornais e revistas de borla. Para consumir os dias na inutilidade do nada fazer. Mas é também verdade que existem reformados com experiência, vitalidade, independência, saber e gosto de transmitir a sua experiência aos mais novos. E com reformas que, legitima e legalmente, conquistaram pelo seu trabalho durante largos anos.

Ficaria bem aos políticos não viverem obcecados com a demagogia dos reformados que ganham pouco, sabendo que não há condições para melhorias sensíveis. Como pelos que têm reformas confortáveis, sabendo que, independentemente da sua necessária limitação e ajustamento em termos de política global, qualquer corte específico e eleitoralista nada resolve em termos de défice, endividamento e crescimento económico. Mesmo não dando muitos votos, seria bonito preocuparem-se também com outros problemas que afectam os reformados cheios de vida, experiência e vontade de participar na resolução dos problemas do país. Dos que, contrariamente ao jovem conterrâneo do Duque, não marcaram como objectivo da vida serem reformados. A vida permitiu-me saber o que significa a constatação da inutilidade na casa dos cinquenta, em que a depressão quase me venceu. E da realização na casa dos setenta em que o trabalho me motiva e ajuda a tentar vencer outras lutas onde a lusitana mesquinhez não tem lugar.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010