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Expresso

António de Almeida

Momentos divertidos da vida

António de Almeida (www.expresso.pt)

Quando a gaivota voava cheia de vigor, fizeram-se as nacionalizações. O país ficou encharcado de EP. Não havia fundos de Bruxelas. Apenas as couves. Viveu-se o sonho de que bastaria mudar a propriedade das mãos privadas para as do Estado para que a felicidade material brotasse. Os bombos da festa, com doses brutais de injustiça, foram as empresas privadas. As crises de 75 a 84 esmoreceram a cor rubra da revolução.

Com a gaivota já de vista cansada, iniciou-se o processo de privatizações. Viveu-se um novo sonho. Portugal afogava-se com os fundos de Bruxelas. Bastaria o PEDIP, semear betão e alcatrão e fazer regressar a propriedade para mãos privadas para que o crescimento fosse contínuo e a felicidade generalizada. As EP passaram a ser zurzidas pelos Zés Pereiras da altura. Foi a fase do novo homem lusitano. Pleno de vigor. Vencedor. Da Bolsa exuberante com pele de gata dengosa. A crise de 93 arrefeceu o sonho cor de laranja.

Orgulhosamente sentados na carruagem da frente, junto ao maquinista, entrámos no euro. Vivemos outro sonho de pujança. Viaturas novas. Segundas habitações. Viagens aos quatro cantos do mundo. Despesa pública galopante. As crises do 'pântano' e da 'tanga' mostraram como o crescimento era apenas invólucro. O sonho cor-de-rosa tornou-se pesadelo.

Poupadas as empresas privadas, como se estas fossem a minoria em que a foto do CEO aparece todos os dias nos independentes diários de negócios, as dificuldades continuaram nas PME. A 'porrada' nas públicas. Exibem-se os seus prejuízos. Assacam-se os mesmos à "incompetência" dos gestores. Na privada, a culpa é sempre da crise, das más políticas e da legislação laboral.

Há que pôr fim a este discurso. A melhor via de alterar a situação das empresas do sector público é o Estado comportar-se como os accionistas privados. Respeitar os seus compromissos. É fácil fazer política à custa das EP e assacar a responsabilidade aos gestores. Concorrer com os privados na contratação dos melhores. Segurá-los. Defendê-los. Respeitá-los. Celebrar contratos muito exigentes em objectivos. Fixar remunerações variáveis ligadas aos mesmos. Sempre será melhor pagar bem a uma equipa de gestores profissionais com provas dadas e evitar que os contribuintes, pela via dos subsídios, cubram os prejuízos. É altura de acabar com os discursos miserabilistas, demagógicos, de caça ao voto e da inveja. Basta que sejam exigentes na escolha dos gestores. E implacáveis quando a mesma é feita pelo cartão do partido, por amizades ou compensação de serviços prestados. Os políticos foram e são os grandes responsáveis pela situação dessas empresas. Gostam de interferir em áreas típicas da gestão. Adoram usá-las. Uma vez, na minha vida profissional, um governante da tutela disse-me, com ar sério, que actuava como Champalimaud. Ouvi respeitosamente enquanto exibia os dotes de superempresário com contrato a termo certo. Algum tempo depois, já ninguém se lembrava do nome desse génio dos negócios. A vida, que nos é emprestada pelo Criador, vale por estes momentos divertidos. E há alturas em que bem precisamos deles.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010