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Expresso

António de Almeida

Economia e costura

Regressado a Portugal no passado sábado, comprei o Expresso no aeroporto para saber as últimas das 'lusitanas escaramuças'. Na verdade, procurava a frase para a minha crónica picante.

Miguel Beleza ajudou-me com a sua apimentada frase "Foi uma excelente lição para Cadilhe, que sabe tanto de economia como eu de costura".

Lida a cru, após um longo voo, a frase pode parecer violenta. Depois de ponderadamente reflectida, tem sumo.

É inquestionável que o facto de alguém ter sido ministro das Finanças não é garantia de "expertise" em ciência da economia. Como a dilatação do pneu abdominal não significa conhecimentos da milenária arte dos tachos.

Em economistas, Portugal tem do que de melhor se produz no mundo. E em quantidade. A sua exportação ajudaria a corrigir o défice externo. Quando os gurus do PIB chegam ao Governo, começam, como qualquer costureira de bairro, por fazer um corte perfeito.

Na ciência do dedal, agulha e tesoura, os cursos, mesmo não financiados, são de corte e costura. Costura sem corte, dá défice de tecido.

Antes de se começar a coser, é conveniente alinhavar. Ponto largo para os artistas do dedal. Ideias gerais para os cientistas da aplicação eficiente de recursos escassos.

Os costureiros, como os economistas políticos, enriquecem as suas obras com bonitos bordados. Dispensam o de cruz, por muito vulgar. Os nortenhos vão mais para o bilro. Os madeirenses têm direito a um bordado especial, muito rico. Os açorianos usam o celeste azul e branco.

Todos fogem ao bordado ponto de cadeia, muito embora alguns não resistam a meter a agulha na argola.

Os problemas começam quando, por deficiente corte ou por consumo excessivo de tecido, aparecem buracos que têm de ser remendados ou disfarçados. Nenhum costureiro gosta de aplicar os seus dotes para remendar.

Nos desfiles de moda, quando o pano escasseia, mostra-se a desnudada alma dos modelos.

Já os economistas, mais habituados aos ciclos eleitorais geradores de rasgões no tecido orçamental, lidam facilmente com essa costura. Até se orgulham de fazer remendos com arte.

O que nunca mostram é o que lhes vai na alma. Talvez, por "ceteribus paribus", as estruturas de raciocínio da economia e da costura não diferirem muito.

Os meus dois bons amigos Miguéis, o Beleza e o Cadilhe, que o contestem.

Economista