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António de Almeida

Austeridade e rigor

António de Almeida (www.expresso.pt)

Na vida pessoal e na actividade privada ou pública, as medidas de austeridade são uma consequência. Quanto às causas, cada um que meta a mão na consciência. O excesso de comida obriga o obeso a austera dieta. O optimismo de que os rendimentos são seguros e sempre crescentes conduz a gastos baseados no crédito. Quando este é cortado e o consumista fundamentalista tem de regressar ao equilíbrio, a depressão ou a bancarrota bate-lhe à porta.

A demagogia política, adoçando a realidade ou prometendo o que não tem condições para sustentadamente dar, mas que o povo adora, pode levar à vitória em eleições. Há sempre a esperança de que, com uma engenharia financeira bem construída, as canas do foguetório de tanta generosidade eleitoral caiam na cabeça de outrem. De vez em quando acertam na do fogueteiro. Muitas vezes falta coragem para ajustar o estilo de vida das populações e das "conquistas" com custos desproporcionados às reais possibilidades das empresas e do país. Depois, a contragosto, temos de mudar de vida. Mas custa tanto andar de cavalo para burro!

Há décadas que andamos desgovernados pelos ciclos eleitorais. Aperta nos dois primeiros anos. Alivia no terceiro. Esbanja no quarto, o das inaugurações. Tinha de, fatalmente, dar nisto. Era uma questão de tempo. Por isso, sem surpresa, aí está mais uma dose de medidas de austeridade. Só quem andasse distraído é que pode aparecer na televisão indignado apenas com as agências de rating e com os especuladores.

As oito medidas de austeridade dividem-se em seis de aumento de impostos. Anafadas. Uma de corte nas despesas. Difusa. Uma última, relativa ao corte nas transferências para municípios. Raquítica. O aumento de impostos é clássico. Tem custos eleitorais, mas como é repartido por muitos - na pública como na privada, nos activos e nos reformados, por cidadãos e empresas - o efeito acaba por se diluir. Já quanto à despesa pública, onde há quilómetros de pano para cortar, os efeitos eleitorais são mais concentrados e todos os partidos passam ao lado.

Tenho 45 anos de gestão de empresas. Em todos os orçamentos em que participei, o corte de despesas e a racionalização de estruturas representaram objectivos prioritários. Não se trata de afirmações vagas de intenções. Trata-se de trabalho feito caso a caso, com análises objectivas e técnicas de medida de produtividade e rentabilidade e comparação com situações semelhantes, procurando ser os melhores. Fixam-se objectivos. Definem-se responsáveis. Monitoriza-se o seu trabalho. Estabelecem-se prémios em função da boa execução. Dá-se conhecimento público dos resultados. Muitas das medidas de racionalização que envolvem o fecho de empresas, institutos, departamentos, redução da dimensão ou o achatamento da estrutura, reduzindo chefias e hipóteses de promoção e exigindo a mobilidade dos funcionários, criam mal-estar e reacção, mas quem dirige empresas ou ganha eleições tem de aceitar esse ónus.

A isto chama-se rigor. É uma tarefa permanente. Intemporal. Nada tem que ver com a austeridade. Nem com a situação do país. Nem com pactos. É uma obrigação do respeito que os contribuintes merecem por parte dos partidos políticos.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010