Siga-nos

Perfil

Expresso

António de Almeida

A lama e a ventoinha

Como o Nicolau não teve a coragem dos directores-gerais da função pública de me mandar para o quadro de excedentários dos croniqueiros, ou para ir criar galinhas, aproveitei o Novo Ano, que se deseja pouco 'subprimido', para fazer mudanças.

Como a vida é cada vez mais feita de ambiguidades, decidi alterar o título da coluna. Não precisei de dar voltas à cabeça para encontrar novo título. Somos diariamente inundados por frases condimentadas por piri-piri. Umas mais picantes do que outras, as quais, sem pagamento de "royalties", oferecem motes para as crónicas. O tempero de gozo fica ao critério do croniqueiro, bem como a avaliação quanto à capacidade de encaixe do fraseador. Lembrando as 'Chicken piri-piri' de Lourenço Marques, baptizei a coluna de 'Frases graciosas'. "Quando a lama entra na ventoinha fica tudo salpicado". A frase inaugural desta nova modalidade croniqueiral, foi proferida pelo meu amigo e bem-sucedido banqueiro, Horácio Roque, e publicada no "JN" do passado dia 3.

Quem viveu na África profunda e sentiu nas botas de trabalho a lama dos pesados aluviões dos seus férteis vales, como o do Incomáti, sabe que ela constitui uma tentação. Quanto mais lama se tem nas botas, mais lama a elas se agarra. Por mais que a lama suje as mãos, há sempre a esperança que uma mangueirada à pressão não deixe marcas. Por outro lado, quando não havia ar condicionado e a humidade mantinha os corpos molhados nas 24 horas, a ventoinha representava uma indispensável companheira. Nos escritórios instalados em casas de lata, sem ar condicionado e com temperaturas superiores a 40 graus, a ventoinha dava mais prazer do que um novo poço de petróleo ao Américo Amorim.

O problema levanta-se quando se abusa da lama, esta se torna mais escorregadia e se é desajeitado no direccionar e na velocidade da ventoinha. Matematicamente poderíamos dizer que "A ventoinha salpica a lama na razão directa do apetite e da velocidade das pás e na inversa da falta de vergonha".

Como, com sabedoria, Horácio Roque afirmou, e quando se é distraído com as fórmulas matemáticas, corre-se o risco de ficarem todos salpicados. Uma vez publicada a salpicadela nas primeiras páginas dos jornais, não há mangueirada que os lave.

Economista