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Editorial

Uma estratégia errada

Depois de ter demorado demasiado tempo a perceber que o mundo tinha mudado, o Governo continua a fazer uma avaliação desfasada da realidade e reage em vez de agir.

(www.expresso.pt)

Desde que começou a anunciar medidas de austeridade para combater a crise, o Governo dá mostras de continuar a não compreender a situação muito difícil em que o país se encontra, apesar de os sinais virem de toda a parte. E por isso anuncia aumento de impostos, que primeiro é para vigorarem ano e meio, e agora já é claro que se vão manter pelo menos até 2013. E por isso anuncia o PEC1, depois o PEC2 e, no momento em que este é aprovado na Assembleia da República, o ministro das Finanças diz esperar que este seja o último aumento de impostos - mas não o garante. E não garante porque o ministro sabe que Bruxelas considera as medidas para 2010 suficientes, mas prevê que para 2011 vai ser necessário tomar mais decisões. E não garante porque as crescentes dificuldades de acesso ao crédito e a subida exponencial do seu custo por parte da República e da banca portuguesa estão a dar gás aos rumores de que acabaremos por ter de recorrer ao megafundo financeiro que a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional constituíram para defender os Estados-membros da UE sob ataque dos mercados - e se recorrermos a esse megafundo vamos ter de aceitar novas medidas impostas pelo FMI. E não garante porque o ministro sabe que a venda da Cimpor a brasileiros, ou da Vivo a espanhóis, ou a entrada de investidores angolanos no BPI, no BCP e na Zon é o resultado precisamente da fragilidade da economia portuguesa e da descapitalização e endividamento dos empresários nacionais.

Estamos na fase de vender os anéis. Mas não é seguro que, depois dos anéis, não tenhamos de cortar alguns dedos. E se não encontrarmos maneira de fazer crescer a economia, nem o corte de todos os dedos chegará.

O desastre

O brutal derrame de petróleo no Golfo do México não vai só dizimar milhares de espécies da fauna e flora marítimas e eliminar o emprego de milhares de pessoas. Vai também afectar a relação das sociedades modernas com a sua principal fonte de energia. Este desastre é o Chernobyl da indústria petrolífera - e vai obrigar a rever profundamente, encarecendo-as, as condições de exploração do petróleo em águas ultraprofundas. Por isso, o que vai acabar não é o petróleo - mas o petróleo a um preço que o possamos pagar.

A luta contra o cancro

Obesidade, sedentarismo e maior longevidade vão fazer disparar o número de portugueses que morrem de cancro por ano - 24 mil agora, 32 mil em 2030, segundo a OMS. Mas em muitos casos o cancro pode tornar-se uma doença crónica, o que exige acompanhamento por parte dos serviços de saúde. Estarão eles preparados para o aumento de casos? A resposta é negativa, pelo que o Estado tem de reforçar pesadamente estes meios. São vidas humanas que estão em jogo.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010