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Editorial

Ter ou não ter

No mesmo dia, à mesma hora, Cavaco Silva e Pedro Santana Lopes foram entrevistados, o primeiro na SIC, o segundo na RTP1. O contraste não podia ser mais flagrante. O Presidente da República manteve a sua pose de "grand seigneur" da política, afirmando-se como defensor dos interesses do país e dos portugueses e recusando entrar no jogo partidário. Deixou claro que, para ele, a estabilidade política é essencial, até para que seja possível concretizar um conjunto de reformas – que "estamos a fazer", disse, num explícito e, por isso, surpreendente sinal de apoio ao Executivo – que o Governo tem vindo a desenvolver. Em resumo, Cavaco foi previsível q.b. e politicamente correcto. E, num recado para o seu partido e para muitos que o apoiaram, lembrou que não se desviou um milímetro daquilo que durante a campanha eleitoral prometeu que faria em Belém.

Ao contrário, o ex-primeiro-ministro retomou todas as velhas teses da grande conspiração contra si e contra o seu Governo, envolvendo o próprio Cavaco (com o seu artigo sobre 'A má moeda expulsa a boa moeda') e Jorge Sampaio nessa tenebrosa maquinação. Insistiu na ideia de que não houve quaisquer razões para o ex-Presidente da República dissolver a Assembleia da República e provocar eleições, afastando-o do poder. Bateu na tecla que com o actual Governo já se passaram situações mais graves, que Belém deixou passar em claro. E insistiu que o seu Governo teve um desempenho bem melhor do que a avaliação que dele é feita.

Santana até pode estar a ser injustiçado e ter toda a razão do mundo. Mas a grande diferença entre ele e Cavaco chama-se credibilidade junto da opinião pública. Cavaco tem-na e à prova de bala. Santana não a tem, nunca a teve – e dificilmente algum dia a terá.



Cultura de meias palavras

Afinal, a terminologia linguística que criou os "advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção" está ou não a ser ensinada em todas as escolas? O Governo afiança que o regime se mantém experimental e restrito, mas muitos professores estão a começar a seguir as novas regras. Esta é apenas uma das confusões que animaram debates durante a semana. Mas há mais.

Segunda-feira entram em vigor apertadas regras para o transporte de crianças. Porém, autarquias, IPSS e clubes desportivos beneficiam de adiamentos. O argumento — o único conhecido — para justificar o tratamento de favor é o de que estão em causa entidades com orçamentos escassos. O que não colhe, pois a segurança dos mais novos — não é isso que está em causa? — tem um valor muito superior.

Outra revelação surpreendente é a de que obter o Bilhete de Identidade em Queluz pode demorar três meses, o dobro do tempo da espera em Sintra e Oeiras. Em Lisboa são três dias. O Ministério da Justiça tenta negar esta evidência e não há explicação 'Simplex' que resista a tamanha disparidade.

De um Governo que tanto se preocupa com a sua imagem política, esperava-se maior eficácia na comunicação.