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Expresso

Editorial

Surpresa! É a Justiça...

Desta vez, e após ter mudado o destino de um presidente de câmara, de um ministro e de um líder político, viemos a saber que uma acusação do MP... não era nada!

(www.expresso.pt)

Se estão recordados, Carmona Rodrigues, presidente da Câmara de Lisboa, foi obrigado a demitir-se em 2007 na sequência de uma acusação grave: a de ter beneficiado a empresa Bragaparques em 10,3 milhões de euros num negócio de permuta de terrenos. Afastado Carmona, António Costa saiu de ministro para concorrer às eleições para a autarquia da capital, que obrigatoriamente tiveram lugar. Ganhou-as. Na sequência da derrota eleitoral do PSD, Marques Mendes convocou eleições no partido e perdeu-as para Luís Filipe Menezes. Ou seja, a vida de várias pessoas foi alterada por via de uma acusação judicial. Mais: pela mesma via, realizaram-se umas eleições que, de outro modo, não seriam realizadas.

Pois bem, essa acusação chega a tribunal. A sessão não dura mais do que três ou quatro minutos. Os juízes ilibam não só Carmona Rodrigues como todos os restantes acusados (dois deles vereadores à altura dos factos) e consideram que o julgamento só podia ter como desfecho a absolvição, o que tornaria o acto de julgar - e cita-se - "processualmente inútil e por isso proibido por lei".

É certo que há um recurso do MP para o Tribunal da Relação, mas se este confirmar a assertividade da primeira instância, temos um caso interessante.

O tempo não volta atrás. Ninguém devolve os dois anos de mandato a Carmona Rodrigues; ninguém faz com que António Costa volte a ministro de Estado e da Administração Interna; ninguém restitui a liderança do PSD a Marques Mendes; ninguém anula eleições que jamais existiriam. No entanto, alguém foi responsável. Ou os investigadores, ou o juiz de instrução, ou os juízes do tribunal. Quem repara os danos? Quem responsabilizamos?

O bom nome

Sim, os jornalistas são maçadores, faltam ao respeito aos políticos, são maldizentes. Sim, um dia provarão o seu próprio veneno. Sim, os media têm uma agenda escondida que visa incriminar políticos desprotegidos e inocentes. Tudo se dá de barato.

Mas, ainda que assim seja, o que leva um vice-presidente do grupo parlamentar do PS, responsável pela área da Justiça, a furtar dois gravadores? A defesa do bom nome - diz o próprio...

Se é o próprio a dizê-lo, está tudo dito! Que grande defesa! Que nome honrado!!!

O TGV

O Governo assina hoje o contrato de concessão do troço Poceirão-Caia da linha que vai ligar Lisboa a Madrid por TGV. Apesar dos calendários, das expectativas do consórcio vencedor, dos compromissos internacionais e da eventual bondade do projecto, a cerimónia não podia acontecer em pior altura. Num momento de endividamento extremo (público e privado) e de falta de liquidez, esta grande obra dá um sinal contraditório ao país. Ficamos com um TGV, é certo. Mas o preço a pagar por isso parece demasiado alto.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010