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Editorial

Os pobres que pagam a crise

A necessidade de introdução de novas regras na assistência social não as torna medidas justas. Mas algumas mostram a irresponsabilidade a que chegáramos.

(www.expresso.pt)

Demagogias à parte, é mais fácil serem os pobres a pagar a crise do que os ricos. Por uma simples questão numérica: são incontavelmente mais. Assim, e ainda que medidas como o aumento do escalão superior do IRS tenha entrado em vigor, a maior parte do esforço vai ser pago por trabalhadores e pensionistas, o que leva a CGTP a considerar as actuais medidas, com o seu natural exagero, "o maior roubo de sempre da História".

A necessidade de medidas assim não as torna, porém, automaticamente justas. Pensar desta forma seria transformar as necessidades em virtudes... Porém, vieram igualmente à luz situações que demonstram a injustiça do sistema social que temos e que alguma esquerda continua irresponsavelmente a defender e a praticar. Por exemplo, como era possível haver apoio social a quem tinha em dinheiro, acções e investimentos mais de 100 mil euros? Pois bem, o facto de esses apoios sociais terem sido agora cortados demonstra não só que existiam, como que jamais seriam cortados, caso não houvesse esta aflição motivada pela crise. E esta urgência, se leva a acções positivas, tem conduzido a muitas outras sem qualquer critério, casuísticas, que põem em causa a sobrevivência digna de alguns dos mais pobres.

As crises são sempre uma oportunidade e esta não pode ser desperdiçada. É necessário revisitar todo o edifício social e, apoiando o que é imperioso apoiar, acabar com os abusos que ao longo dos anos se acumularam. Já se sabe que é mais fácil cortar a eito, sem critério, mas foi este caminho de facilitismo que permitiu a estranha situação de atribuir um subsídio social a quem tinha depósitos de 100 mil euros no banco.

Feriados

Há histórias que demonstram a irracionalidade colectiva que, por vezes, se acumula na política. É o caso da proposta de 'colar' os feriados aos fins-de-semana, eliminando as pontes.

Esta ideia, que é comum na Europa, tinha sido apresentada por Cavaco há quase 20 anos, mas foi recusada por toda a esquerda com razões que nunca foram muito claras. Passadas duas décadas, veio o Governo PS propô-la, desta vez com o apoio do PSD. Moral da história: perdeu-se um tempo precioso. E tempo é dinheiro!

O stresse da banca

Primeiro os EUA pressionaram, mas os alemães resistiram. Depois, os alemães concordaram e a Europa aceitou. Por determinação da UE, na cimeira desta semana, vamos em princípio conhecer o estado real dos bancos europeus, o chamado stresse da banca.

A transparência é sempre de saudar, e ainda que possamos ter algumas surpresas preocupantes, certamente teremos outras agradáveis. Separar o trigo do joio é um efeito positivo das crises.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010