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Editorial

O julgamento da História

Esperemos um dia não olhar esta primeira década do séc. XXI como hoje se olha a primeira década do séc. XX - estagnação, desperdício, decomposição e bancarrota.

(www.expresso.pt)

"O acordo de dois partidos, revezando-se sucessivamente no poder (...) falhara inteiramente na sua reiterada aplicação prática. O jogo permanente (...) desgastara todas as engrenagens, boleara todos os ângulos, puíra todas as arestas (...) Nenhum dos dois partidos a si mesmo se distinguia do outro, a não ser pelo nome do respectivo chefe, politicamente diferenciado, quando muito, pela ênfase pessoal de mandar para a mesa o orçamento ou de pedir o copo de água aos contínuos".

Esta longa citação de Ramalho Ortigão, nas "Últimas Farpas" (1911), não necessita comentários. A coincidência é por demais evidente. Vejamos os últimos 10 anos: o final do guterrismo e o pântano; seguiu-se Durão Barroso que foi (também se pode dizer 'fugiu') para a Europa; houve o curto interregno Santana e, até agora, o consulado Sócrates. Do ponto de vista dos contribuintes, das pessoas singulares sem grande interesse pela política, foram todos parecidos: desperdiçaram recursos, cobraram mais impostos, nomearam boys atrás de boys, alguns completamente incompetentes. O que os distinguiu, verdadeiramente, salvo os nomes ou a forma como pedem "o copo de água"?

O diagnóstico está feito há 100 anos. Voltemos a Ramalho, companheiro de Eça na Geração de 70, monárquico liberal desiludido, para ver os sintomas:

"A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo".

A questão, como sempre, é de liderança. Teremos - homens e valores - em quem acreditar ou continuaremos num definhamento progressivo até à exaustão do país, agora que nem uma alternativa, ainda que ilusória como na altura a República, temos para apostar?

As sentenças da História são duras penas. Esperemos no futuro não julgar esta década com a severidade com que hoje julgamos os 10 primeiros anos do século XX.

Trabalho e desemprego

Aceita-se que é necessário um controlo apertado dos benefícios sociais e, em especial, do subsídio de desemprego. Mas dizer que há um incentivo ao trabalho com a diminuição do montante do subsídio é demasiado cruel.

O que se passa, na realidade, é que há muita gente desempregada que, além do subsídio, compõe o fim do mês com trabalhos domésticos, pequenos biscates. Ao oferecerem a essas pessoas salários de 475 euros não compensa.

Mas isto não é querer trabalhar. É ter a necessidade absoluta de sobreviver. Na crise, há que compreender a diferença.

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010