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Expresso

Editorial

Lula, o fenómeno

Nos tempos da 'viradeira', quando o Marquês de Pombal foi deposto e perseguido, um refrão popular dizia que ''mal por mal, antes o Pombal''. Na verdade, deve ser mais ou menos isto que o Ocidente pensa sobre a eventual vitória de Lula – quando comparado com Evo Morales ou Hugo Chávez o ex-sindicalista parece um fino estadista de enorme recorte político e diplomático.

Lula cresceu com um partido populista, sem programa, que foi agregando os deserdados da esquerda. Chegou a Brasília prometendo mudar muita coisa, mas o choque com a realidade foi forte e o novo Presidente, que gostava de proclamar a sua profissão de torneiro-mecânico, mudou muito pouco. Foi-se habituando, não só à política como, ao que parece, à endémica politiquice brasileira onde se compram votos e despacham adversários. Do 'mensalão' ao 'dossiêgate', parece não haver escândalo em que o PT, o gabinete de Lula ou os próximos de Lula não estejam envolvidos.

Para quem tinha o sonho ou a utopia de uma redenção por via da classe operária, Lula foi uma desilusão.

Mas, ainda assim, o pouco que fez pelos mais pobres chega-lhe, aparentemente, para ganhar as presidenciais de amanhã. E o contraste com os seus vizinhos da Bolívia e da Venezuela é tão grande, que mesmo aqueles que o não apoiam já o vêem como um moderado mal menor.

Apesar de todos os erros, Lula não tocou no essencial da democracia do seu país. Ao contrário, por exemplo, de Chávez (que sendo apalhaçado tem mais tempo de antena internacional), não dá sinais de se querer perpetuar.

Ainda assim, custa verificar o modo quase entusiástico como Lula é tratado na nossa comunicação social. Fora ele de direita, com os escândalos que tem em cima, quantos já o teriam definitivamente crucificado?

 

A marca da economia

Depois de uma comunicação desastrada sobre o preço da electricidade, o Ministério da Economia veio resolver o problema decretando que, em vez de 15,7%, a tarifa só aumentará 5,9%.

Aos consumidores agradecidos resta uma pergunta: se o Governo pode passar de 15 para 6, por que não passou para um valor mais baixo, mais perto dos aumentos de salários que concedeu? Por outro lado, se o Governo nada tem a ver com as tarifas da electricidade, por que lhes mexeu?

Naturalmente, haverá explicações inteligentíssimas para o facto mas, como em qualquer medida, o problema foi ter ficado a meio.

Deste modo, nem a primeira justificação – a do mercado – prevalece, nem a segunda – a da intervenção governamental – agrada.

O ministério da Economia parece ser perito neste tipo de mal-entendidos.

De certo modo, já é a sua imagem de marca.