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Expresso

Editorial

Isto não é um conto policial

O caso Maddie voltou a mostrar a quantidade de peritos policiais em potência que habita cada um de nós. Entre palpites, suspeitas e alvitres circulam teorias do rapto ou da morte da criança. O supino ridículo chega quando o presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores, regressa momentaneamente aos seus tempos de inspector da PJ e dá opiniões sobre a polícia inglesa, os jornais ingleses e os súbditos de Sua Majestade, no geral.

Os jornais britânicos pagam na mesma moeda, lembrando o 'caso Joana' e a suposta tareia que a PJ do Algarve terá dado à mãe dessa menina desaparecida e, posteriormente, considerada assassinada pela própria mãe.

A pressão aumenta e a polícia – com os 100 dias de desaparecimento de Maddie, com a investigação desorientada e sem verdadeiras pistas, com os jornais e televisões em cima do assunto, com o medo de passar por pouco competente – parece ter feito uma desesperada fuga para a frente. A generalidade dos "media", sobretudo os de cariz mais popular, agarrou-se a uma teoria para ter qualquer coisa de novo a dizer. A análise do noticiário, longe de mostrar independência e distanciamento, indicia a existência de uma espécie de central que parece orientar os meios de comunicação.

O resultado não tem sido bonito: o até então principal mau da fita, Robert Murat, ficou livre de suspeitas; os McCann passaram de heróis a quase vilões.

A história tem sido demasiadas vezes tratada como se estivéssemos perante um conto policial, no qual é possível colocar hipóteses sem ferir sentimentos. Mas este não é um conto. É a realidade de uma menina que desapareceu em Portugal. E a realidade não permite que haja culpados antes de existirem provas – para lá de quaisquer dúvidas razoáveis.

O veto do Estatuto

Cavaco Silva decidiu – e bem – vetar o Estatuto do Jornalista. Apesar das tentativas do ministro Santos Silva e do seu especial apoiante Vital Moreira para minimizar esse veto (Vital acha, até, que os principais derrotados serão os jornalistas que se opuseram ao Estatuto), o acto do Presidente tem um significado preciso.

O Executivo bem tenta reduzir tudo à dimensão da técnica jurídica e dos subterfúgios linguísticos. Mas o que se passou foi da mais pura política.

A fúria regulamentadora de Santos Silva, que agora se derrama numa proposta de lei, em fase de discussão pública (chamada Lei que "promove o pluralismo" como se o pluralismo tivesse necessidade de ser promovido por um Governo), teve um revés.

Daqui se podem retirar dois caminhos: o da sobranceria ou o da humildade democrática. Em breve veremos se, depois do veto, o PS vai continuar a ser o único partido a aprovar um diploma tão sensível quanto este.