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Expresso

Editorial

Dois recuos muito felizes

Talvez tenha sido esta a semana em que o Governo mais flagrantemente quebrou promessas. Mas, ainda assim, foi uma semana em que José Sócrates anunciou duas medidas dignas de aplauso: que não haveria referendo em Portugal e que o aeroporto seria em Alcochete e não na Ota, depois de feitos os respectivos estudos técnicos.

O referendo ao Tratado de Lisboa não teria qualquer efeito prático. Tratou-se de uma promessa sem sentido, aliás partilhada pelo PS e PSD. Na verdade, um Tratado - para mais com as características deste - não será propriamente um documento referendável. E mesmo que a ideia fosse sujeitar a votos a participação portuguesa na União, o certo é que desde há muito que os dois maiores partidos a defendem, pelo que a pergunta se afiguraria sem sentido, transformando-se num apelo à abstenção. Isto, no limite, contribuiria para deslegitimar a participação de Portugal na UE e não o contrário, como pretendem os defensores da consulta.

A escolha de Alcochete, mesmo depois do que pareceu ser uma fixação excessiva na Ota, veio provar que um movimento desencadeado em oposição ao Governo (o PSD de Marques Mendes foi, talvez, o principal artífice da campanha anti-Ota) pode ter real eco no Executivo e levá-lo a mudar de posição. Este aspecto, ao contrário do que apressadamente alguns têm referido, não é um factor de enfraquecimento do primeiro-ministro ou de qualquer ministro em particular.

Para o dizer de forma absolutamente transparente, não se pode criticar um Governo por não ouvir ninguém, para depois exigir a demissão de quem dá ouvidos a quem deve.

Estes foram, de facto, dois recuos muito felizes.

Com o tempo, passada a espuma, são as decisões - e não as discussões - tudo o que permanece.

À sombra do Estado

É verdade que Armando Vara já era funcionário da Caixa Geral de Depósitos muito antes de ser político. Mas o seu inédito pedido de licença sem vencimento a esta instituição, a fim de poder ser vice-presidente do maior banco privado português, mostra a confiança que tem em si próprio e no seu empreendedorismo como gestor de topo. Provavelmente legal. Sem dúvida imoral.

Sem maioria

A sondagem que esta semana publicamos indica que o Partido Socialista, caso as eleições fossem hoje, não teria a maioria absoluta. Se os 20 meses que nos separam das próximas eleições não correrem de feição ao Governo - o que é bem provável, tendo em conta o panorama internacional -, este pode ser o retrato do próximo ciclo político: um Governo sem maioria e, provavelmente sem aliados. Um novo guterrismo.